Todo o conteúdo deste Blog é de minha autoria (fotos, textos, filmes), salvo menção expressa. A reprodução é permitida, desde que: a) não haja edição; b) sejam dados os devidos créditos e citada a fonte; e c) não seja feito uso comercial. Agradeço se me informarem.

domingo, 6 de março de 2011

Bendita Visita

Recebi, casualmente, uma visita inesperada. Um garotinho vizinho se encantou com o Gandhi, meu cão. Ele tinha uns 3 anos e estava com a babá. Convidei-os para entrar. Entraram, curiosos. O garoto fez carinho no Gandhi e olhou em volta. Janaína chamou-o para brincar. Lá pelas tantas, vieram à cozinha, onde eu lavava a louça, o garoto viu frutas na mesa e pediu uma ameixa. Comeu-a inteirinha. A babá: "Em casa, ele nunca come uma fruta inteira. Sempre deixa a metade"... na frente do menino, sem consciência do reforço que estava dando à atitude que criticava... e sem saber que é assim mesmo... e que é por isso que é tão saudável para as crianças visitarem amigos e vizinhos... principalmente vizinhos como eu (rs)!
A cozinha dá para o quintal atrás da casa, invisível da rua. A porta para o quintal estava aberta, o garoto viu, passou pela porta e num impulso se dirigiu firmemente ao quintal. De repente, tudo muito rápido, como em um filme de suspense, a babá, num grito, agarrou o garoto a arrancou-o daquele impulso em direção à natureza. Apavorada, ela o carregou, esperneando, para dentro de casa e, de dentro para fora pela porta da rua... lugar mais seguro do que aquele quintal tão cheio de plantas!
Foi tudo muito rápido... mal deu tempo de eu dizer-lhe que não havia perigo, que o deixasse solto explorar o quintal, que o quintal era para isso mesmo, para ser explorado e visitado por crianças como ele, que Janaína sempre brincava lá fora em maior segurança.... não sei se eu lhe disse isso tudo... talvez só tenha pensado.
De onde vem esse medo? Essa distância tão grande de algo que deveria ser parte da vida de toda criança? Lembrei das estórias infantis... de João e Maria perdidos na floresta da bruxa da casa de doces, de Chapeuzinho Vermelho encontrando com o lobo mal que comerá sua avó, de Branca de Neve perdida no meio da floresta assustadora do filme de Walt Disney... e pensei no quão eficientes foram em criar essa imagem da floresta como um lugar aterrador e perigoso, lugar que deve ser destruído para que animais peçonhentos, nojentos e perigosos não invadam a nossa casa e a nossa vida....
Lhes parece tão perigoso assim esse lugar?

Abaetetuba em janeiro de 2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Colheita

Iniciamos o primeiro dia de trabalho no quintal com 2 novos estagiários com uma colheita. Época de manga, acerola, framboesa, mamão e goiaba! Colhemos também mandioca, rúcula e temperinhos para o almoço e ervas para o chá! Depois da colheita, agradecemos manejando o quintal com carinho e cuidado. Com o manejo, garantimos mais colheitas abundantes no futuro... um círculo virtuoso que confirma o que ouvi do Mestre Boaventura de Sousa Santos quando entrevistei-o para um vídeo do Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais: que a Mãe é generosa com os filhos a respeitam e cuidam dela.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Vestibular - um Rito de Passagem?

Ouvi de um jovem mestre em Tantra que na tradição de algum povo indígena brasileiro as pessoas trocam de nome a cada rito de passagem, mais ou menos a cada 5 anos. Que lindo... que maravilhoso seria podermos ter o direito de começar cada nova etapa de nossa vida zerando tudo o que ficou para trás, com nova identidade, depois de passar por um rito que mostra que estamos prontos e somos merecedores! Poder começar sabendo que tudo o que aconteceu antes deve ser honrado, mas não faz mais parte de nós. As culpas, as coisas inacabadas, as mágoas causadas noutrem, as dívidas, as vergonhas... tudo zerado... quites com a comunidade, com a família, com o mundo físico e espiritual. Não precisar nunca mais justificar ou explicar algo que foi feito por uma pessoa com outro nome, na qual não nos reconhecemos mais. Enriquecidos, amadurecidos e gratos pelos aprendizados, podermos nos lançar no futuro leves e despojados de qualquer peso do passado. Mostrarmos ritualisticamente nossa coragem, determinação e capacidade e não precisarmos provar mais nada a ninguém.
Penso nisso no dia de hoje... dia do vestibular da minha filha mais velha. Saímos cedo, almoçamos, conversamos, e fui deixa-la no local da prova. Assim que acordou, ela me fez declarações de amor. Declarações que deixaram meu coração alegre e feliz, certa de estar no lugar certo e, de repente, grata por cada segundo do meu passado, pelas alegrias e tristezas, pelas dores e pelas realizações, pelas escolhas e decisões. Senti a gratidão por cada um desses momentos me invadir porque cada um deles me trouxe até aqui, neste exato instante e lugar... para ouvir declarações de amor de minha filha no dia de sua primeira prova do vestibular. Enquanto almoçávamos, ela me disse: “Eu quero tanto passar no vestibular. Eu já estou pronta para essa nova etapa. Vivi tão intensamente o ensino médio. Tudo aconteceu tão perfeitamente na hora certa. Agora já quero outra coisa. Quero estudar assuntos que me interessam. Já estou pronta para entrar na Universidade.” De repente, me lembrei de que mudei de nome quando entrei na Universidade... E durante anos fui chamada por esse nome. E tudo fez sentido.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Abaetetuba - Um Jardim Agroflorestal

Uma visão de Abaetetuba por meu amigo querido Sérgio Pamplona... nesse dia, plantamos juntos uma muda de bacuri, uma de cupuaçu e uma de maracujá! O quintal se expande na medida em que esses novos moradores chegam! 

Abaetetuba (nome de uma cidade do interior do Pará) é uma palavra de origem Tupi-Guarani que significa “lugar cheio de gente boa”. Quando ouvi isso, logo pensei que seria o nome ideal para o jardim onde moro. Além da gente boa que vive aqui comigo, árvores trepadeiras arbustos ervas insetos passarinhos lagartos lagartixas, passam sempre por aqui por acaso, de repente, de surpresa, convidados ou em eventos planejados, tantos amigos queridos... são todos muito bem vindos...


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Chapada dos Guimarães


Inspirada pelo Marcos, que compartilhou um Álbum do Picassa com fotos de curso de Agrofloresta na Fazenda São Luiz me fazendo viajar no tempo e no espaço, compartilho com vocês o meu olhar sobre a Chapada dos Guimarães (clique nesse link para ver o Álbum todo).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Manifesto Por uma Alimentação Viva

Se o que desejamos é a Vida, por que cultivamos a Morte?

Cultivamos a Morte quando, sistematicamente, esterilizamos o Mundo.
Imagine um Planeta estéril, um deserto sem vida e sem fim...
Pois não é exatamente isso que estamos fazendo com nossa Terra?

Esterilizamos o solo que antes abrigava milhares e milhares de espécies de árvores ervas cipós bromélias mamíferos insetos répteis bactérias aves fungos... incontáveis espécies de planta bicho microorganismo... este solo que passa a abrigar somente uma, uma única espécie... soja... milho... cana-de-açúcar... não é isso um deserto? Um deserto onde antes havia abundância de vida. O solo, que antes era vivo escuro cheiroso úmido... se torna seco pálido morto... Apenas suporte físico para que um monocultivo qualquer equilibre a balança comercial ao invés de morada de milhões de espécies. Toda vida se vai com a aplicação dos “cidas”... Biocidas... Inseticidas... Herbicidas... Fungicidas... que destroem a vida e tornam os nossos solos estéreis. Serão nossos solos capazes de produzir vida no futuro?

Esterilizamos nossas casas compulsivamente, metodicamente. Casa brilhando e estéril. Nossas crianças cada vez mais limpinhas e... frágeis... crescendo em bolhas estéreis... Esterilizamos nossos quintais bosques jardins... não suportamos ver folhas em decomposição, adubando a terra... preferimos a visão de um solo seco limpo estéril. Varremos, juntamos, queimamos e impedimos que a vida continue... junto com as folhas secas que nos incomodam tanto, varremos e queimamos as sementes que gerariam as florestas do futuro...  Esquecemos dos ciclos... vida morte vida... estacionamos na morte...

Esterilizamos nossos corpos.
Pensamos que somos apenas uma espécie... quando somos um sistema no qual vivem muitas espécies... somos a morada de muitas espécies sem as quais não podemos viver... bactérias fungos vírus.... que convivem conosco nos ajudando, entre outras coisas, a aproveitar o alimento que ingerimos, pré-digerindo substâncias que não somos capazes de digerir sozinhos...  Como esses nossos aliados sobreviverão a tantos conservantes espessantes corantes... Nos alimentamos de substâncias mortas... esquecemos que os organismos que digerem (apodrecem) os alimentos fora de nosso corpo (o que queremos de qualquer maneira evitar...) são os mesmos que o digerem dentro de nós... Conservantes... Inseticidas... Fungicidas... destroem a vida que existe em nós e que nos ajuda a digerir decompor absorver nutrir... desenvolvemos intolerâncias alergias dependências...

Além de estéreis estamos nos tornando sintéticos...
De onde vêm os elementos químicos que compõem as moléculas, que compõem as células, que compõem os tecidos, que compõem os órgãos que nos compõem?
Sim.... dos alimentos que ingerimos...
E que alimentos são esses? De onde vêm os elementos químicos que farão parte do nosso corpo, do nosso coração, de nossa pele, de nossos olhos? As células se renovando diariamente, incorporando elementos químicos absorvidos em nosso estômago, intestinos... com que tipo de alimentos? Do que queremos ser feitos? De elementos químicos que venham de alimentos sintéticos?... elementos sintéticos, fabricados em laboratórios... são esses os elementos que queremos que componham nossas células, nossos tecidos, órgãos?... ou queremos que esses elementos venham de alimentos vivos, elementos que tenham feito parte de células vivas, células que compunham tecidos, órgãos, seres... Seres que viviam em cultivos diversificados, felizes, vivos, ricos... que viviam em florestas junto com outros milhares de seres... Alimentos vivos que venham de cultivos vivos, plantados em solos vivos, e que tragam mais vida para nosso corpo.

Afinal, do que queremos que sejam feitos nossos corpos, pensamentos, sentimentos e ações?

Afinal, o que queremos? A Vida ou A Morte?