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terça-feira, 28 de maio de 2013

Jardinagem Agroflorestal no CEMEIT - Taguatinga-DF

28 de maio, segunda oficina de jardinagem agroflorestal com jovens da EIT, Centro de Ensino Médio de Taguatinga-DF. Foi um convite do projeto Mapa Gentil (http://mapagentil.com.br), realizado pelos meu amigos e parceiros do Faísca Associação Cultural e pela Flávia, professora daquelas que nasceram para isso, vocacionada, entregue, inteira. Integrando-me, por meio da jardinagem, ao projeto e à EIT, começo devagarinho, ainda em processo de aproximação, sedução, conquista. Compartilho algumas imagens dessa nossa pequenina e riquíssima oficina (todas as fotos, com exceção das 2 últimas, foram feitas pela Ana Carolina Lima, aluna da EIT e participante da oficina):

Uma breve rodada de apresentação para sabermos os nomes uns dos outros. Que barato fazer uma atividade envolvendo alunos e professores para aprendermos juntos!
Eu levei uma terra rica em matéria orgânica do meu quintal. Assim, pudemos observar a diferença com relação à terra do canteiro onde resolvemos fazer nossa intervenção. Foi um bom pretexto para conversarmos sobre a importância da vida no solo.
Primeiro passo: tirar toda a sujeira do canteiro.
Lixos diversos foram encontrados. 
Segundo passo: podar galhos e folhas velhos e secos. Aqui mostro como fazer.

E aqui o Rafael pratica, podando um galho seco da azaléia...
... e folhas velhas da agave dragão.
Depois de fazermos uma capina seletiva, Flávia e Ana Clara espalham o adubo orgânico sobre a terra do canteiro. 
Isabela mistura o adubo na terra e planta flores para o canteiro ficar alegre e colorido. 
Quase terminamos... penúltimo e dos mais importantes passos: cobrir o solo com matéria orgânica. Mas... não havia fonte de matéria orgânica na escola. E agora? Isso será tema da nossa próxima oficina, porque cobrir bem o solo é condição essencial para fazermos uma jardinagem realmente ecológica.
Flávia semeia salsinha, uma das poucas hortaliças que suporta meia-sombra. Afinal, também é essencial inserirmos plantas comestíveis nos nossos jardins!
Antes e durante a prática, conversamos sobre a função de cada ferramenta utilizada na jardinagem agroflorestal, sobre o conceito de Permacultura e de Cultura, sobre a poda das plantas como estratégia de dinamização dos sistemas, sobre a função da meso e microfauna do solo e também sobre os desafios culturais para o cultivo de jardins agroflorestais na cidade, já que esses exigem um solo densamente coberto e cheio de vida. As perguntas foram muitas... o que demonstrou o interesse dos participantes!

Agradeço o preciosa participação de cada um dos que estiveram presentes e ao Ministério da Cultura que, por meio do Prêmio Tuxaua, apóia minha participação nesse projeto tão desafiador quanto inspirador.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Quintais e Crianças: Vida e Movimento*

Tudo o que é vivo está em constante movimento.
Até o que parece, a primeira vista, estático, como por exemplo uma planta ou uma rocha, assim parece somente porque a escala de tempo dos humanos é diferente da escala de tempo desses Seres. As rochas se movem, racham, deslocam-se, acumulam matéria e crescem, são intemperizadas e transformam-se em solo. Muitos afirmam que rochas são seres vivos.
Há um filme na internet feito a partir de imagens da série VIDA da BBC, narrada por David Attenborough (http://vimeo.com/26332964). Filmado ao longo de dias, meses, ou quem sabe anos, os realizadores mostram o delicado e sutil movimento das plantas. Em seu crescimento, exploram espaços, sobem e descem, abrem-se em flores coloridas. Mas olhos atentos podem ver o movimento das plantas mesmo sem que seja necessário acelerar as imagens como nesse filme maravilhoso.
E as crianças? A definição de criança é movimento. Elas necessitam do movimento para crescerem. Tendo a acreditar que crianças educadas em ambientes e culturas muito sóbrios e rígidos, nos quais não podem se movimentar livremente, tendem a se tornar adultos tristes. Se existe algum estudo a esse respeito, gostaria de conhecê-lo.
Pedagogos, educadores e psicólogos que trabalham com educação infantil são unânimes em dizer que o movimento é essencial para o desenvolvimento intelectual e cognitivo da criança, assim como o é para seu desenvolvimento físico. Para a criança pequena, o movimento é a forma de conhecer o mundo e de se comunicar. Portanto, as crianças não ficam se mexendo o tempo todo só para irritar os adultos (apesar de muitos pensarem e sentirem assim). Elas se mexem porque o movimento é necessário à oxigenação de suas células. Elas se mexem o tempo todo porque tudo lhes interessa. Oxigenadas, suas células são ávidas por conhecer, experimentar, vivenciar, viver. Seu corpo exige a movimentação constante para que os músculos se estendam, para que suas veias e artérias se estiquem, para que suas sinapses se formem. Seu corpo exige o movimento, para ficar forte e sustentar os ossos que crescem e o seu próprio peso, que aumenta a cada dia. Deixar que a criança experimente e vivencie o movimento livre e natural do seu corpo é essencial para que uma criança cresça feliz e equilibrada.
O quintal agroflorestal, ele também está sempre em movimento.
Vejo que muitos têm a expectativa de que chegará o dia em que o quintal estará pronto. Isso não existe. A menos que seja gasta uma quantidade enorme de energia para mantê-lo estático. Além de podas frequentes, seria necessário utilizar adubos químicos e venenos sistematicamente para evitar o movimento do jardim. Criaríamos assim jardins frios e hidrofóbicos, que rejeitam a água e a vida.
Se o que desejamos é a vida em abundância e se o que desejamos é viver em consonância com o fluxo da vida, é necessário deixarmos a sucessão acontecer, as espécies se substituírem, plantas morrerem e outras surgirem.
Um quintal agroflorestal muda o tempo todo. Quando começamos a acumular vida no solo, deixando-o abundantemente coberto com folhas e galhos (serapilheira), as sementes trazidas pelo vento, pelas aves, morcegos e todo pequeno animal que passar por ali germinam. Se for hábito levar para o quintal agroflorestal todo o resto orgânico da cozinha, inclusive caroços e sementes, então tomates, abóboras, manga, mamões e toda fruta que gostamos de comer brotarão magicamente no quintal. Em um quintal agroflorestal vivo e dinâmico, uma horta se transforma em pomar, o pomar volta a ser horta. A touceira de banana se expande, anda, e ocupa novos cantos do quintal deixando para trás solo fértil e mudas de frutíferas em crescimento. Árvores antigas se tornam adubo e ornamentais de sombra se expandem em espaços onde antes havia sol em demasia para elas. Em um quintal em movimento, nosso papel é o de espalhar sementes e estacas por todo o canto e observar a linguagem das plantas que vão nos mostrando os melhores ambientes para cada uma, as interações mais felizes com suas vizinhas. A partir dessa observação, podemos, com nossa intervenção, por meio do manejo, atuar de forma positiva, acelerando o movimento e o acúmulo crescente de vida e abundância.
Por tudo isso, um projeto de quintal agroflorestal é somente uma referência, um guia, uma direção a seguir, um lugar por onde começar, um destino fictício a nos orientar.  Não se deve ter a expectativa de conseguir fazer um desenho exato de como estará o quintal daqui a 10 anos. Isso seria ter a boba expectativa de que podemos determinar exatamente como serão nossas crianças daqui a 10 anos. Tentativa infrutífera que pode ter como consequência a frustração. Estejamos abertos ao novo, ao inesperado, ao movimento. Que venham as sementes trazidas pelas aves que descansam nos galhos das nossas árvores, que germinem aquelas que vão junto com o resíduo orgânico da nossa cozinha. E que todas as crianças do mundo tenham o direito de movimentar-se e tornar-se exatamente aquilo que fará delas pessoas felizes. 

 chuvas de jan de 2011

seca de maio 2013
* Originalmente publicado na edição de abril/2013 do Jornal Deusa Viva, da Teia de Thea (www.teiadethea.org)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Colheita na Abundância*


De repente, ouço um estrondo. Algo caiu lá no chão no quintal. Logo penso que foi um abacate. Vou em busca dele por entre as folhagens plantas, galhos, raízes... e encontro a maior graviola que eu já vi e toda minha vida. Inteirinha. Sem um machucado. Oferecendo-se. Quando a abri, não pude acreditar em meus olhos. Um branco que não é cor de tinta branca. É cor de branco da natureza. Nenhum machucado, nenhum bichinho intruso, nenhum pretinho daqueles que geralmente acompanham as graviolas que colho no meu quintal. Não ligo para eles e os bichinhos que os provocam. Sempre ainda sobra muita graviola para suco, cremes e mousses. Mas confesso que foi impactante ver aquele fruto tão saudável, tão inteiro, tão branco e tão majestoso ali na minha frente.

Outra vez, foi parecido. Daquela vez, eu estava na varanda pensando no que faria para o almoço. De repente, aquele som surdo de coisa caindo em cima da serapilheira que cobre o chão da minha florestinha. Era um abacate. Enorme e maduro. Prontinho para virar guaca mole. Um luxo. O abacate do meu quintal já está famoso de tão bom que ele é. Fruto enorme, caroço pequeno. Muita polpa, verde clara, sem fio, macia, sedosa e saborosa. De vez em quando encontro alguém que não vejo há tempos: “Ei, quando vamos colher abacate no seu quintal de novo?”. O abacateiro é tão grande que é necessário uma operação especial para a colheita. No mínimo 3 pessoas. Uma para subir e cortar com o podão o pendão do fruto. E dois para segurarem o pano lá embaixo que amortecerá a queda do abacate lançado lá de cima pela primeira pessoa. Como é uma trabalheira subir lá no topo, já colhemos tudo o que damos conta. No mínimo 20 de cada vez. Depois dividimos a colheita entre os participantes. Abundância...



A abundância é a regra da natureza. Ela sempre está em busca de produzir excedentes para que todos tenham fartura. Os sistema naturais, quando estão muito doentes e degradados, precisam de um tempo para acumular matéria e energia. Depois desse período de acumulação, começa o período de prosperidade no qual a produção é maior do que a necessária somente para a própria manutenção. Produção de frutos, sementes, folhas, raízes, galhos... Abundância que permite que cada vez mais seres possam ali se fartar. O sistema vai se tornando cada vez mais rico e complexo. Quando a abundância é muito grande, o sistema até pode exportar essa abundância e ajudar na recuperação de outros sistemas ao redor.

Então, primeiro o sistema acumula, depois exporta. Inverter as coisas é um desastre. Tentar extrair matéria e energia de um sistema que ainda está em acumulação é sempre uma operação muito delicada. Deve-ser fazer com muita cautela para evitar que o sistema emperre, se machuque ou até volte para trás. Há que se pensar sempre em como ajudar o sistema a ir para frente, para a abundância, e não o contrário. Mas, quando a gente chega na abundância... ahhhh... é o deleite, a colheita farta, a tranquilidade, a paz... e podemos então (devemos?) dividir, espalhar, doar.

Mas para chegar lá, muito serviço. O bom, é que no quintal, o serviço é bom demais... cortar, picar, podar, plantar, cobrir o solo, semear, cuidar. A natureza só pede que sigamos seu fluxo. Observando, interagindo, entrando em contato empático com a natureza, ela nos mostra o que devemos fazer para ajudá-la. Aguçar os sentidos é a nossa tarefa. Uma tarefa que não acaba nunca pois que sempre mais profundamente é possível entrar nessa relação de intimidade entre seres. Entre todos os seres.

Mas mais do que serviço, também bastante paciência. Paciência para esperar, serenamente e, em serviço, a colheita e a abundância. 

* texto originalmente publicado no Jornal Deusa Viva, da Teia de Thea (teiadethea.org), edição de março de 2013. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Mutirão Agroflorestal, a Alegria de Fazer Parte


O Mutirão Agroflorestal, organização e movimento dos quais faço parte desde os seus inícios respectivamente em 2003 e 1996, surgiu no desejo que um grupo de amigos tinham de fazer parte, de participar, de agir, de aprender fazendo e, principalmente, de fazer tudo isso juntos. Naquela época, eu quase nada sabia sobre Agrofloresta. Passados 17 anos, a Agrofloresta se tornou meu modo de ver o mundo, o viés pelo qual penso, sinto e ajo. Naquele início, fazíamos encontros a cada um ou dois meses, viajando para sítios, chácaras e fazendas de agricultores ou de algum de nós mesmos, para praticar, plantar, manejar, celebrar, dançar, cantar e, principalmente, para estarmos juntos. O tempo passou, o movimento se tornou organização não governamental. Nos espalhamos pelo país, pessoas sumiram, outras chegaram. Projetos, sonhos, consultorias, palestra e eventos depois, é nos mutirões agroflorestais que nos sentimos mais Mutirão Agroflorestal. É no manejo, no plantio, no exercício da convivência em alegria e respeito que nos sentimos parte dessa família. Mesmo quando apenas alguns de nós podem estar presentes, os outros distantes ou atarefados, sentimos a presença de cada um dos que tanto nos ensinaram e inspiraram. E é com as mãos nas plantas, sementes e terra que nos sentimos realmente participando do ciclo da vida.

Essas palavras saem dos meus dedos inspiradas por um fim-de-semana cheio de mutirão agroflorestal. No domingo, dia 24, renova-se a amizade e parceria com Mangala e seu Ateliê Angico para realizarmos juntos um mutirão de manejo. Pessoas queridas e outras desconhecidas juntam-se a nós nessa aventura que é o serviço totalmente desprendido de trabalhar para deixar um pedacinho do Planeta mais bonito e cheio de vida. Gratidão, Mangala!



Foto: Marco Gonçalves

Antes de começar, em círculo, combinamos o que vamos fazer. Muita gente nova, é necessário alinharmos alguns conceitos.


Foto: Marco Gonçalves


Um dos grupos dedicou-se ao manejo de uma touceira de banana! E a galera caprichou: assim é que se faz ao cortar os pseudocaules que já produziram, deixando esse funil para evitar a propagação do moleque da bananeira.


Foto: Marco Gonçalves

Outros, como eu e esses todos que estão na foto, nos dedicamos a cortar tudo o que estava velho, podar o que precisava ser podado para depois cobrir bem o solo, principal tarefa do agroflorestador. Vejam só na foto aí embaixo como Narmada e Luciana dedicam-se concentradamente a essa tarefa tão essencial.


Foto: Marco Gonçalves
Foto: Marco Gonçalves





Surpresa surpreendente e celebrada, a aranha carrega seus ovos fugindo dos nossos facões.



Foto: Marco Gonçalves

Mudas de ipê, café, cajá, tangerina, jatobá, siriguela e sementes diversas vão para o chão, lá onde é o seu lugar. Ah... taí uma das coisas mais gostosas do mundo... plantar...

Foto: Eduardo Rombauer
O que mais me emocionou? 
A fala de um dos participantes, ainda novato em mutirões agroflorestais, quando partilhou seu sentimento de surpresa com a leveza e amorosidade com que nós realizamos nossa tarefa. O grande barato do mutirão agroflorestal é que transformamos não somente o lugar onde realizamos nossa intervenção, mas também aquecemos os nossos corações, unindo-os uns aos outros em sonhos comuns. Que sonhos? Sonhos de paz e abundância para todos os Seres. É assim um mutirão agroflorestal. 

Agradeço ao Marco Gonçalves que registrou tudo e cedeu as fotos para que publicássemos aqui. Valeu Marco! Exceção de autoria é a foto do grupo, feita pelo Eduardo Rombauer para que o Marco pudesse aparecer!

Quer ver mais e outro jeito de contar a história? Visite o blog do Ateliê Angico que a postagem da Mangala tá show: http://www.atelieanjico.blogspot.com.br/2013/03/mutirao-agroflorestal-2.html

domingo, 3 de março de 2013

Gratidão ao Quintal Agroflorestal*




Passo o dia procurando prá lá e prá cá, rodando como barata tonta pela casa, procurando anotações, lendo trechos de livros, textos, artigos e finalmente, já de madrugada, vou para o quintal em busca de inspiração para escrever este artigo. Adentro um quintal totalmente diverso daquele que encontrei há pouco, no meio da tarde. Outros sons, outros movimentos. O ruído dos cupins trabalhando, um farfalhar rápido de folhas que denuncia a passagem de algum animal, ruídos leves de bichinhos diversos e ocultos. Aves, répteis, insetos? Penumbras, sombras, luzes de lâmpadas de postes atravessando os espaços há poucas horas ocupados pelos raios do sol. Aos poucos, meus olhos se acostumam com as cores da noite e os vultos começam a se tornar familiares.
Sento-me em um dos cantinhos mais aconchegantes do quintal, sob o enorme abacateiro. Ao lado, a jabuticabeira exibe na penumbra recortada por rajadas de luz sintética os seus galhos tortuosos que se entrelaçam em um balé em câmera lentíssima, invisível à maior parte dos olhos humanos acostumados com a alta velocidade da vida moderna. Olho para cima e percebo que as folhas do guapuruvu estão todas fechadinhas deixando a luz da lua chegar até o cafeeiro que se encontra logo abaixo, como persianas abertas para deixar a luz entrar na casa. Fantasio que o guapuruvu fecha suas folhinhas só para presentear o cafezinho com um banho de luar.
Fico esperando a inspiração chegar... e nada.
Resolvo caminhar, lentamente, observando, procurando pistas e dicas.
Encontro uma mudinha pequenina de cupuaçu que plantei há cerca de 1 mês. Ela começou a lançar folhas novas, peludas, vermelhas. Sinal de que está feliz naquele lugar. Meu coração se alegra e se enche de amor. Olho em volta. No raio de 3 metros de onde estou, olho em todas as direções e conto 34 diferentes espécies. As que consigo ver naquela meia luz. Algumas com vários representantes. Todas ali ao meu redor, ao alcance dos meus olhos, da minha voz e da minha intenção. E me sinto inteira gratidão. Conheço cada um desses seres. Alguns já estavam ali quando cheguei, outros chegaram trazidos pelo vento ou pelos passarinhos, mas grande parte foi plantada por mim. Lembro das sementes que lancei e não germinaram, das mudas que plantei e morreram, das árvores que participaram dos meus experimentos de poda e não sobreviveram. Logo ali, um pequeno açaizeiro nascido de sementes presenteadas por amigo querido lança dois perfilhos, dois brotinhos laterais que formarão a touceira. Ao seu lado, um ingá de metro que podei no último manejo, feito na colheita dos frutos suculentos com gosto de infância. O chão ao redor todo coberto com a generosa massa resultante desse manejo. Atrás de mim, pendura-se um maracujá quase maduro. O último desse pé. Acima, o majestoso ipê roxo, agora todo folhoso, cuida de todos nós aqui embaixo. Agarrada ao seu tronco, uma orquídea abriu, nesta semana, 4 flores que recebem os visitantes na entrada no nosso lar...
Percebo o resultado do manejo que fiz nesse lugar há poucos dias. O jardim todo responde com beleza ao cuidado que lhe dediquei. As formas harmônicas, as folhas reluzentes, as cores, a diversidade de tamanhos, arquiteturas, a beleza de cada uma daquelas plantas, tão diferentes uma das outras, e todas igualmente belas. Sinto-me como quando estamos em uma festa cheia de amigos queridos. Sinto-me rodeada de vida. Imagino a vida existente sob a serapilheira, os bichinhos todos trabalhando incansavelmente para adubar meu jardim. E sinto a gratidão invadir meu ser. Agradeço a companhia, os aprendizados, a beleza e a abundância. Declaro o meu amor. E quanto mais declaro meu amor, maior a intimidade que nos une. E a intimidade amplifica o meu amor.
Meu quintal é como uma criança pequena. Se não lhe dou atenção, ele fica com cara de abandonado, com excessos aqui e faltas ali, coisas secas por cima de coisas vivas, uma bagunça aos sentidos, ninhos de vespas que se formam aproveitando minha ausência. Ao contrário, se lhe dou atenção, mesmo que não seja o tanto de tempo que ambos gostaríamos, mesmo que eu não dê conta de manejar o quintal inteiro; todo ele desabrocha, fica lindo e declara seu amor por mim em beleza explícita. Quando estou inteira, quando me entrego à nossa experiência de interação, quando ouço, olho, observo, converso, presto atenção... meu quintal, assim como uma criança manhosa, deixa de gemer. Ao contrário, sorri e fica colorido. Depois de algum tempo distante, voltei a dedicar algumas horas diárias ao cuidado com o quintal. E lindo, ele me agradece. Sinto vontade de filmá-lo novamente, de mostrar os novos habitantes, novos ângulos, novos pontos de vista. Sinto-me invadida pela inspiração e imagino o filme que acontecerá. Não sei se a experiência rendeu um texto, mas certamente resultará em um filme!

* Texto originalmente publicado na edição de março de 2013 do jornal "Deusa Viva"da Theia de Thea (www.teiadethea.org)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Formigas: Pragas ou Aliadas?*


Se há uma pergunta recorrente na Jardinagem Agroflorestal, essa pergunta é: “Como acabo com as formigas cortadeiras?”.
As formigas cortadeiras são geralmente consideradas as pragas mais terríveis e de difícil combate com a qual podemos nos deparar no jardim. Ai que raiva que dá quando, de um dia para o outro, desaparece aquela muda que plantamos com tanto carinho. Como nos sentimos impotentes diante da velocidade com que são capazes de destruir nosso plantio! Me perguntam sempre como fazer para eliminá-las. O desejo é que sejam extintas. A presença de um formigueiro é, via de regra, vista como algo ruim e indesejado. Os mais esclarecidos me perguntam como acabar com elas de forma ecológica... desde que sumam dali. “Será que é tão grave assim eu usar iscas?”... “só um pouquinho”.
O problema do uso de venenos para combater as formigas cortadeiras ou qualquer outra “praga” que surja no nosso jardim agroflorestal não é somente o risco de contaminação do ambiente. Essa é somente uma das consequências possíveis. O estrago maior que realizamos quando utilizamos esses produtos é que eliminamos um ser que não está ali por acaso. Está ali para realizar uma tarefa. E quase sempre uma tarefa importante e que tem como objetivo aumentar a quantidade de vida e promover o equilíbrio do nosso sistema. Aquele ser geralmente está ali para nos mostrar algo. E toda vez que simplesmente utilizamos um veneno para eliminar uma “praga” do nosso jardim, estamos perdendo a oportunidade de aprender um pouco mais sobre a natureza e seus mecanismos, sobre as estratégias que a vida utiliza para se perpetuar no planeta, sobre como podemos agir para nos tornarmos cada vez mais íntimos da natureza. Porque, afinal, um jardim agroflorestal não é um conjunto de objetos de decoração, não é apenas um cenário para nossa casa. Um jardim agroflorestal é muito mais do que isso. É uma maneira de nos tornarmos parte do ciclo da vida, parte do sistema vivo planetário.           
Diferentemente do que a maior parte das pessoas acredita, as formigas cortadeiras não se alimentam das folhas que cortam. As folhas que elas cortam são utilizada por elas no cultivo dos fungos dos quais elas se alimentam. As formigas são jardineiras, assim como nós. As iscas normalmente utilizadas para eliminar as formigas são tóxicas para esses fungos. Com a morte dos fungos, o formigueiro entra em colapso.
Apesar de só vermos o que existe acima do solo, abaixo dele, sob nosso jardim, existe um mundo. Um mundo cheio de vida. Um mundo capaz de acumular grande quantidade de carbono sob a forma de matéria orgânica. É a matéria orgânica que deixa nosso solo negro, fofo e cheiroso e que deixa a terra nutritiva para nossas plantas. Um jardim agroflorestal bem cuidado é tão rico e diversificado abaixo quanto acima do nível do solo. Raízes se entremeiam com camadas sobrepostas de seres vivos, túneis feitos por bichos diversos, ninhos de insetos, larvas... e formigueiros. Dentro desses formigueiros, grande quantidade de carbono é fixado com o acúmulo de folhas e fungos.
Que plantas as formigas cortam para fazer esse serviço? Elas cortam qualquer planta indiscriminadamente? Observe. Que plantas elas preferem? As formigas cortam plantas saudáveis que já estão firmemente instaladas no seu jardim? Ou preferem as mudinhas que acabamos de plantar, recém chegadas? Preferem folhas velhas ou novas? Em que tipo de situação? Em que época do ano? Elas devoram todas as folhas ou selecionam algum tipo específico? Em que altura da planta elas atuam?
Observei, em meu quintal agroflorestal, as formigas cortadeiras atuando em diferentes situações. Uma delas, muito comum, é quando planto uma mudinha de alguma espécie exótica e exigente como a roseira ou a laranjeira. Elas percebem que o solo ainda não está fértil o suficiente para essas plantas. Ou também, quando planto mudinhas de espécies que são de pleno sol (emergentes) na sombra. As formigas, sabendo que plantei no lugar errado, vão lá consertar o meu erro tirando a mudinha dali! Já me aconteceu também da formiga tirar uma roseira (que é emergente) de um lugar onde havia sol mas que, com o crescimento das árvores que plantei por ali, tornou-se lugar de sombra. O lugar deixou de ser adequado para a roseira, apesar de ter acumulado mais vida. Também já vi formigas fazendo uma faxina geral ao redor da goiabeira, cortando e levando frutos caídos no chão. Maravilha! Nesse caso, achei foi bom, porque, afinal de contas, goiabas apodrecendo no chão atraem as mosquinhas das frutas... Certa vez, as formigas me mostraram que eu havia feito uma poda totalmente errada em um pessegueiro. Tanto a época do ano quanto a fase da lua tinham sido inadequados. A formiga foi lá e cortou todos os brotos e folhas novas. Outra vez, a formiga estava cortando, lentamente, as folhas velhas de um hibisco. Dei uma poda geral e caprichada, observando bem a arquitetura da planta e altura com relação às vizinhas. Resultado: o hibisco rebrotou lindo e vigoroso graças à dica das formigas sobre a necessidade da poda. Em cada uma dessas situações, aprendi algo novo sobre como cuidar melhor do quintal, sobre a melhor época de podar, sobre onde e quando plantar o quê.
É por isso que eu não me preocupo em eliminar os formigueiros do meu jardim. Há alguns. E fico feliz ao saber que estão acumulando matéria orgânica no solo. Basta olhar para o quintal e perceber seu vigor e exuberância para saber que elas não estão nos causando nenhum mal significativo.
Mas o que fazer quando há uma planta que desejamos muito muito e que a formiga não nos deixa de jeito nenhum cultivar? Roseiras, por exemplo. As formigas são implacáveis com as roseiras. Ahhh... há que se trabalhar o solo e prepará-lo para receber plantas tão exigentes assim. Há que se ter paciência. Isso, às vezes, exige tempo. De que adianta acelerar as coisas, colocar veneno, matar os formigueiros, empobrecer o lugar, somente para satisfazer meu desejo de ter rosas no jardim? Há que se desapegar, às vezes, de desejos assim... Há tantas outras flores lindas, coloridas e cheirosas mais adaptadas ao meu lugar. Hei de ser capaz de esperar o tempo das roseiras... ou, às vezes, simplesmente desistir delas e esquecer o assunto.





* Publicado originalmente na edição de fevereiro de 2012 do Jornal "Deusa Viva", da Teia de Thea (www.teiadethea.org). Todas as fotos postadas nesse Blog, salvo quando for mencionado, são de Helena Maria Maltez e podem ser usadas livremente desde que sem fins comerciais e que sejam citados a autora e a fonte.  

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Darwinismo Social e Complexidade

Encontro no meio do artigo de Lúcia Nagib sobre arqueologia na América Latina datado de outubro de 2000 publicado no caderno Mais! da Folha de São Paulo: "(...) como as do darwinismo social, que propunha que as sociedades complexas seriam superiores às simples." (...). 

Independentemente do contexto em que se encontrava a frase, reencontrá-la me impactou:

O que significa essa concepção?
O que é uma sociedade complexa?
Quais os indicadores de complexidade?
O que é complexidade?
O que é mais complexo? Que todos os produtos fabricados com milho encontrados em todas as prateleiras de todos os supermercados utilizem menos de uma dezena de genótipos exatamente iguais da uma dezena (um chute) de variedades transgênicas existentes no mercado hoje? Ou será que é mais complexo o cultivo familiar de milhares de diferentes genótipos refletidos nas centenas de variedades crioulas selecionadas por gerações e gerações de agricultores e agricultoras, cada um desses genótipos adaptados a um microambiente específico, a ser plantado em uma determinada época e que será utilizado para centenas de diferentes finalidades e receitas?
Qual desses dois cenários contém conhecimento mais complexo?
Qual deles necessita de relações interpessoais mais complexas?
Qual deles trabalha em um ambiente natural mais complexo?
Que sociedade, então, segundo o darwinismo social, estaria mais próxima de ser superior?
Mas a ideia de "sociedade superior" também me apavora.
Haveria possibilidade de convivência? 
Como seria isso?