Todo o conteúdo deste Blog é de minha autoria (fotos, textos, filmes), salvo menção expressa. A reprodução é permitida, desde que: a) não haja edição; b) sejam dados os devidos créditos e citada a fonte; e c) não seja feito uso comercial. Agradeço se me informarem.

terça-feira, 26 de março de 2013

Mutirão Agroflorestal, a Alegria de Fazer Parte


O Mutirão Agroflorestal, organização e movimento dos quais faço parte desde os seus inícios respectivamente em 2003 e 1996, surgiu no desejo que um grupo de amigos tinham de fazer parte, de participar, de agir, de aprender fazendo e, principalmente, de fazer tudo isso juntos. Naquela época, eu quase nada sabia sobre Agrofloresta. Passados 17 anos, a Agrofloresta se tornou meu modo de ver o mundo, o viés pelo qual penso, sinto e ajo. Naquele início, fazíamos encontros a cada um ou dois meses, viajando para sítios, chácaras e fazendas de agricultores ou de algum de nós mesmos, para praticar, plantar, manejar, celebrar, dançar, cantar e, principalmente, para estarmos juntos. O tempo passou, o movimento se tornou organização não governamental. Nos espalhamos pelo país, pessoas sumiram, outras chegaram. Projetos, sonhos, consultorias, palestra e eventos depois, é nos mutirões agroflorestais que nos sentimos mais Mutirão Agroflorestal. É no manejo, no plantio, no exercício da convivência em alegria e respeito que nos sentimos parte dessa família. Mesmo quando apenas alguns de nós podem estar presentes, os outros distantes ou atarefados, sentimos a presença de cada um dos que tanto nos ensinaram e inspiraram. E é com as mãos nas plantas, sementes e terra que nos sentimos realmente participando do ciclo da vida.

Essas palavras saem dos meus dedos inspiradas por um fim-de-semana cheio de mutirão agroflorestal. No domingo, dia 24, renova-se a amizade e parceria com Mangala e seu Ateliê Angico para realizarmos juntos um mutirão de manejo. Pessoas queridas e outras desconhecidas juntam-se a nós nessa aventura que é o serviço totalmente desprendido de trabalhar para deixar um pedacinho do Planeta mais bonito e cheio de vida. Gratidão, Mangala!



Foto: Marco Gonçalves

Antes de começar, em círculo, combinamos o que vamos fazer. Muita gente nova, é necessário alinharmos alguns conceitos.


Foto: Marco Gonçalves


Um dos grupos dedicou-se ao manejo de uma touceira de banana! E a galera caprichou: assim é que se faz ao cortar os pseudocaules que já produziram, deixando esse funil para evitar a propagação do moleque da bananeira.


Foto: Marco Gonçalves

Outros, como eu e esses todos que estão na foto, nos dedicamos a cortar tudo o que estava velho, podar o que precisava ser podado para depois cobrir bem o solo, principal tarefa do agroflorestador. Vejam só na foto aí embaixo como Narmada e Luciana dedicam-se concentradamente a essa tarefa tão essencial.


Foto: Marco Gonçalves
Foto: Marco Gonçalves





Surpresa surpreendente e celebrada, a aranha carrega seus ovos fugindo dos nossos facões.



Foto: Marco Gonçalves

Mudas de ipê, café, cajá, tangerina, jatobá, siriguela e sementes diversas vão para o chão, lá onde é o seu lugar. Ah... taí uma das coisas mais gostosas do mundo... plantar...

Foto: Eduardo Rombauer
O que mais me emocionou? 
A fala de um dos participantes, ainda novato em mutirões agroflorestais, quando partilhou seu sentimento de surpresa com a leveza e amorosidade com que nós realizamos nossa tarefa. O grande barato do mutirão agroflorestal é que transformamos não somente o lugar onde realizamos nossa intervenção, mas também aquecemos os nossos corações, unindo-os uns aos outros em sonhos comuns. Que sonhos? Sonhos de paz e abundância para todos os Seres. É assim um mutirão agroflorestal. 

Agradeço ao Marco Gonçalves que registrou tudo e cedeu as fotos para que publicássemos aqui. Valeu Marco! Exceção de autoria é a foto do grupo, feita pelo Eduardo Rombauer para que o Marco pudesse aparecer!

Quer ver mais e outro jeito de contar a história? Visite o blog do Ateliê Angico que a postagem da Mangala tá show: http://www.atelieanjico.blogspot.com.br/2013/03/mutirao-agroflorestal-2.html

domingo, 3 de março de 2013

Gratidão ao Quintal Agroflorestal*




Passo o dia procurando prá lá e prá cá, rodando como barata tonta pela casa, procurando anotações, lendo trechos de livros, textos, artigos e finalmente, já de madrugada, vou para o quintal em busca de inspiração para escrever este artigo. Adentro um quintal totalmente diverso daquele que encontrei há pouco, no meio da tarde. Outros sons, outros movimentos. O ruído dos cupins trabalhando, um farfalhar rápido de folhas que denuncia a passagem de algum animal, ruídos leves de bichinhos diversos e ocultos. Aves, répteis, insetos? Penumbras, sombras, luzes de lâmpadas de postes atravessando os espaços há poucas horas ocupados pelos raios do sol. Aos poucos, meus olhos se acostumam com as cores da noite e os vultos começam a se tornar familiares.
Sento-me em um dos cantinhos mais aconchegantes do quintal, sob o enorme abacateiro. Ao lado, a jabuticabeira exibe na penumbra recortada por rajadas de luz sintética os seus galhos tortuosos que se entrelaçam em um balé em câmera lentíssima, invisível à maior parte dos olhos humanos acostumados com a alta velocidade da vida moderna. Olho para cima e percebo que as folhas do guapuruvu estão todas fechadinhas deixando a luz da lua chegar até o cafeeiro que se encontra logo abaixo, como persianas abertas para deixar a luz entrar na casa. Fantasio que o guapuruvu fecha suas folhinhas só para presentear o cafezinho com um banho de luar.
Fico esperando a inspiração chegar... e nada.
Resolvo caminhar, lentamente, observando, procurando pistas e dicas.
Encontro uma mudinha pequenina de cupuaçu que plantei há cerca de 1 mês. Ela começou a lançar folhas novas, peludas, vermelhas. Sinal de que está feliz naquele lugar. Meu coração se alegra e se enche de amor. Olho em volta. No raio de 3 metros de onde estou, olho em todas as direções e conto 34 diferentes espécies. As que consigo ver naquela meia luz. Algumas com vários representantes. Todas ali ao meu redor, ao alcance dos meus olhos, da minha voz e da minha intenção. E me sinto inteira gratidão. Conheço cada um desses seres. Alguns já estavam ali quando cheguei, outros chegaram trazidos pelo vento ou pelos passarinhos, mas grande parte foi plantada por mim. Lembro das sementes que lancei e não germinaram, das mudas que plantei e morreram, das árvores que participaram dos meus experimentos de poda e não sobreviveram. Logo ali, um pequeno açaizeiro nascido de sementes presenteadas por amigo querido lança dois perfilhos, dois brotinhos laterais que formarão a touceira. Ao seu lado, um ingá de metro que podei no último manejo, feito na colheita dos frutos suculentos com gosto de infância. O chão ao redor todo coberto com a generosa massa resultante desse manejo. Atrás de mim, pendura-se um maracujá quase maduro. O último desse pé. Acima, o majestoso ipê roxo, agora todo folhoso, cuida de todos nós aqui embaixo. Agarrada ao seu tronco, uma orquídea abriu, nesta semana, 4 flores que recebem os visitantes na entrada no nosso lar...
Percebo o resultado do manejo que fiz nesse lugar há poucos dias. O jardim todo responde com beleza ao cuidado que lhe dediquei. As formas harmônicas, as folhas reluzentes, as cores, a diversidade de tamanhos, arquiteturas, a beleza de cada uma daquelas plantas, tão diferentes uma das outras, e todas igualmente belas. Sinto-me como quando estamos em uma festa cheia de amigos queridos. Sinto-me rodeada de vida. Imagino a vida existente sob a serapilheira, os bichinhos todos trabalhando incansavelmente para adubar meu jardim. E sinto a gratidão invadir meu ser. Agradeço a companhia, os aprendizados, a beleza e a abundância. Declaro o meu amor. E quanto mais declaro meu amor, maior a intimidade que nos une. E a intimidade amplifica o meu amor.
Meu quintal é como uma criança pequena. Se não lhe dou atenção, ele fica com cara de abandonado, com excessos aqui e faltas ali, coisas secas por cima de coisas vivas, uma bagunça aos sentidos, ninhos de vespas que se formam aproveitando minha ausência. Ao contrário, se lhe dou atenção, mesmo que não seja o tanto de tempo que ambos gostaríamos, mesmo que eu não dê conta de manejar o quintal inteiro; todo ele desabrocha, fica lindo e declara seu amor por mim em beleza explícita. Quando estou inteira, quando me entrego à nossa experiência de interação, quando ouço, olho, observo, converso, presto atenção... meu quintal, assim como uma criança manhosa, deixa de gemer. Ao contrário, sorri e fica colorido. Depois de algum tempo distante, voltei a dedicar algumas horas diárias ao cuidado com o quintal. E lindo, ele me agradece. Sinto vontade de filmá-lo novamente, de mostrar os novos habitantes, novos ângulos, novos pontos de vista. Sinto-me invadida pela inspiração e imagino o filme que acontecerá. Não sei se a experiência rendeu um texto, mas certamente resultará em um filme!

* Texto originalmente publicado na edição de março de 2013 do jornal "Deusa Viva"da Theia de Thea (www.teiadethea.org)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Formigas: Pragas ou Aliadas?*


Se há uma pergunta recorrente na Jardinagem Agroflorestal, essa pergunta é: “Como acabo com as formigas cortadeiras?”.
As formigas cortadeiras são geralmente consideradas as pragas mais terríveis e de difícil combate com a qual podemos nos deparar no jardim. Ai que raiva que dá quando, de um dia para o outro, desaparece aquela muda que plantamos com tanto carinho. Como nos sentimos impotentes diante da velocidade com que são capazes de destruir nosso plantio! Me perguntam sempre como fazer para eliminá-las. O desejo é que sejam extintas. A presença de um formigueiro é, via de regra, vista como algo ruim e indesejado. Os mais esclarecidos me perguntam como acabar com elas de forma ecológica... desde que sumam dali. “Será que é tão grave assim eu usar iscas?”... “só um pouquinho”.
O problema do uso de venenos para combater as formigas cortadeiras ou qualquer outra “praga” que surja no nosso jardim agroflorestal não é somente o risco de contaminação do ambiente. Essa é somente uma das consequências possíveis. O estrago maior que realizamos quando utilizamos esses produtos é que eliminamos um ser que não está ali por acaso. Está ali para realizar uma tarefa. E quase sempre uma tarefa importante e que tem como objetivo aumentar a quantidade de vida e promover o equilíbrio do nosso sistema. Aquele ser geralmente está ali para nos mostrar algo. E toda vez que simplesmente utilizamos um veneno para eliminar uma “praga” do nosso jardim, estamos perdendo a oportunidade de aprender um pouco mais sobre a natureza e seus mecanismos, sobre as estratégias que a vida utiliza para se perpetuar no planeta, sobre como podemos agir para nos tornarmos cada vez mais íntimos da natureza. Porque, afinal, um jardim agroflorestal não é um conjunto de objetos de decoração, não é apenas um cenário para nossa casa. Um jardim agroflorestal é muito mais do que isso. É uma maneira de nos tornarmos parte do ciclo da vida, parte do sistema vivo planetário.           
Diferentemente do que a maior parte das pessoas acredita, as formigas cortadeiras não se alimentam das folhas que cortam. As folhas que elas cortam são utilizada por elas no cultivo dos fungos dos quais elas se alimentam. As formigas são jardineiras, assim como nós. As iscas normalmente utilizadas para eliminar as formigas são tóxicas para esses fungos. Com a morte dos fungos, o formigueiro entra em colapso.
Apesar de só vermos o que existe acima do solo, abaixo dele, sob nosso jardim, existe um mundo. Um mundo cheio de vida. Um mundo capaz de acumular grande quantidade de carbono sob a forma de matéria orgânica. É a matéria orgânica que deixa nosso solo negro, fofo e cheiroso e que deixa a terra nutritiva para nossas plantas. Um jardim agroflorestal bem cuidado é tão rico e diversificado abaixo quanto acima do nível do solo. Raízes se entremeiam com camadas sobrepostas de seres vivos, túneis feitos por bichos diversos, ninhos de insetos, larvas... e formigueiros. Dentro desses formigueiros, grande quantidade de carbono é fixado com o acúmulo de folhas e fungos.
Que plantas as formigas cortam para fazer esse serviço? Elas cortam qualquer planta indiscriminadamente? Observe. Que plantas elas preferem? As formigas cortam plantas saudáveis que já estão firmemente instaladas no seu jardim? Ou preferem as mudinhas que acabamos de plantar, recém chegadas? Preferem folhas velhas ou novas? Em que tipo de situação? Em que época do ano? Elas devoram todas as folhas ou selecionam algum tipo específico? Em que altura da planta elas atuam?
Observei, em meu quintal agroflorestal, as formigas cortadeiras atuando em diferentes situações. Uma delas, muito comum, é quando planto uma mudinha de alguma espécie exótica e exigente como a roseira ou a laranjeira. Elas percebem que o solo ainda não está fértil o suficiente para essas plantas. Ou também, quando planto mudinhas de espécies que são de pleno sol (emergentes) na sombra. As formigas, sabendo que plantei no lugar errado, vão lá consertar o meu erro tirando a mudinha dali! Já me aconteceu também da formiga tirar uma roseira (que é emergente) de um lugar onde havia sol mas que, com o crescimento das árvores que plantei por ali, tornou-se lugar de sombra. O lugar deixou de ser adequado para a roseira, apesar de ter acumulado mais vida. Também já vi formigas fazendo uma faxina geral ao redor da goiabeira, cortando e levando frutos caídos no chão. Maravilha! Nesse caso, achei foi bom, porque, afinal de contas, goiabas apodrecendo no chão atraem as mosquinhas das frutas... Certa vez, as formigas me mostraram que eu havia feito uma poda totalmente errada em um pessegueiro. Tanto a época do ano quanto a fase da lua tinham sido inadequados. A formiga foi lá e cortou todos os brotos e folhas novas. Outra vez, a formiga estava cortando, lentamente, as folhas velhas de um hibisco. Dei uma poda geral e caprichada, observando bem a arquitetura da planta e altura com relação às vizinhas. Resultado: o hibisco rebrotou lindo e vigoroso graças à dica das formigas sobre a necessidade da poda. Em cada uma dessas situações, aprendi algo novo sobre como cuidar melhor do quintal, sobre a melhor época de podar, sobre onde e quando plantar o quê.
É por isso que eu não me preocupo em eliminar os formigueiros do meu jardim. Há alguns. E fico feliz ao saber que estão acumulando matéria orgânica no solo. Basta olhar para o quintal e perceber seu vigor e exuberância para saber que elas não estão nos causando nenhum mal significativo.
Mas o que fazer quando há uma planta que desejamos muito muito e que a formiga não nos deixa de jeito nenhum cultivar? Roseiras, por exemplo. As formigas são implacáveis com as roseiras. Ahhh... há que se trabalhar o solo e prepará-lo para receber plantas tão exigentes assim. Há que se ter paciência. Isso, às vezes, exige tempo. De que adianta acelerar as coisas, colocar veneno, matar os formigueiros, empobrecer o lugar, somente para satisfazer meu desejo de ter rosas no jardim? Há que se desapegar, às vezes, de desejos assim... Há tantas outras flores lindas, coloridas e cheirosas mais adaptadas ao meu lugar. Hei de ser capaz de esperar o tempo das roseiras... ou, às vezes, simplesmente desistir delas e esquecer o assunto.





* Publicado originalmente na edição de fevereiro de 2012 do Jornal "Deusa Viva", da Teia de Thea (www.teiadethea.org). Todas as fotos postadas nesse Blog, salvo quando for mencionado, são de Helena Maria Maltez e podem ser usadas livremente desde que sem fins comerciais e que sejam citados a autora e a fonte.  

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Darwinismo Social e Complexidade

Encontro no meio do artigo de Lúcia Nagib sobre arqueologia na América Latina datado de outubro de 2000 publicado no caderno Mais! da Folha de São Paulo: "(...) como as do darwinismo social, que propunha que as sociedades complexas seriam superiores às simples." (...). 

Independentemente do contexto em que se encontrava a frase, reencontrá-la me impactou:

O que significa essa concepção?
O que é uma sociedade complexa?
Quais os indicadores de complexidade?
O que é complexidade?
O que é mais complexo? Que todos os produtos fabricados com milho encontrados em todas as prateleiras de todos os supermercados utilizem menos de uma dezena de genótipos exatamente iguais da uma dezena (um chute) de variedades transgênicas existentes no mercado hoje? Ou será que é mais complexo o cultivo familiar de milhares de diferentes genótipos refletidos nas centenas de variedades crioulas selecionadas por gerações e gerações de agricultores e agricultoras, cada um desses genótipos adaptados a um microambiente específico, a ser plantado em uma determinada época e que será utilizado para centenas de diferentes finalidades e receitas?
Qual desses dois cenários contém conhecimento mais complexo?
Qual deles necessita de relações interpessoais mais complexas?
Qual deles trabalha em um ambiente natural mais complexo?
Que sociedade, então, segundo o darwinismo social, estaria mais próxima de ser superior?
Mas a ideia de "sociedade superior" também me apavora.
Haveria possibilidade de convivência? 
Como seria isso?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Seca em Dezembro?*


Estamos em Dezembro. Não chove há quase uma semana! No quintal, as plantas secam.
Penso logo nos agricultores que plantaram somente há duas semanas. Penso nas sementes recém germinadas, nas pequenas plantinhas surgindo. As raízes ainda pequeninas não estão prontas para buscar a água do fundo da terra. O seu corpinho ainda não acumulou água suficiente para agüentar mais que três ou quatro dias sem chuva. Uma semana sem chover pode ser fatal. Se isso acontecer, todo o esforço e as sementes serão perdidos. E se só havia aquelas sementes? E se não houver mais sementes guardadas para plantar? E se aquela variedade adaptada àquele lugar vem sendo plantada incansavelmente ano após ano há muitas gerações? De repente, uma semana sem chuva faz desaparecer para sempre aquela combinação de genes selecionados durante tantas gerações de plantios e colheitas...
As chuvas começaram tarde esse ano. Um mês mais tarde do que no ano passado. Mas quem plantou, disciplinadamente, na primeira semana de chuvas, no meio de novembro, provavelmente não perderá sua colheita. As plantas talvez sofram um pouco com esse veranico fora de hora, mas com quase um mês e meio crescendo no solo, estarão grandes o suficiente para terem acumulado a água que as manterá vivas durante alguns dias de inesperada seca. As raízes já afundaram no solo e conseguem acessar a água que se acumulou sob a superfície com as primeiras chuvas intensas. Se o solo estiver coberto com matéria orgânica, melhor ainda e maiores as chances de sobrevivência. É nessa hora que um solo coberto faz toda a diferença!
É claro que aqueles que podem ter um sistema de irrigação nada sofrem, mesmo que tenham plantado um pouco mais tarde. Mas quem pode? A agricultura familiar que cuida das variedades adaptadas localmente ou as empresas rurais que plantam sementes hibridas e transgênicas? Está claro quem mais sofre com as consequências das mudanças do clima? E qual o custo ambiental dos sistemas de irrigação? Quando sabemos que 70% da água potável vêm sendo utilizados para a irrigação dos cultivos e que, aos poucos, os aqüíferos superficiais e de sub-superfície vêm sendo aceleradamente esgotados e poluídos, podemos concluir que quem pagará esse custo não é quem irriga hoje, mas sim nossos filhos e netos que não terão água para beber se continuarmos explorando os recursos hídricos da forma como estamos fazendo atualmente.
Conhecer os ciclos da natureza é, há milênios, mais do que necessário. É uma questão de sobrevivência. Quem foi disciplinado e conhece os ciclos da natureza, plantou no meio do mês de novembro. E não plantou todas as sementes que tinha. Quem se atrasou, por um motivo ou por outro, e não dispõe de um sistema de irrigação, está a ver suas plantas morrerem com esse veranico fora de hora.
Há o momento certo de plantar para que a colheita seja abundante. O momento de plantar – literalmente – as roças que nos alimentarão em 2013 coincide, no nosso calendário romano, com o final de um ciclo solar, momento de parada para as festas de fim de ano e, para muitos, momento de tirar férias e descansar. Momento também de plantar nossos sonhos e, mais do que isso, colocar a semente de fato na terra, no momento certo, disciplinadamente, sem adiarmos nenhuma semana. Assim, nenhuma seca inesperada nos pegará de surpresa. Nossas plantinhas já estarão em franco crescimento, forte e resistentes e aguentarão alguns dias de veranico.    

* Originalmente publicado na edição de dezembro do Jornal "Deusa Viva", da Teia de Thea (www.teiadethea.orgwww)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Plantas e Humanos em Coevolução

Em genética de populações, coevolução é o fenômeno pelo qual diferentes espécies se modificam ao longo das gerações como resultado da interação que acontece entre elas.

Um exemplo clássico é a evolução de muitas das substâncias de defesa produzidas pelas plantas. As plantas que consideramos venenosas são plantas que produzem substâncias tóxicas que as protegem do ataque dos herbívoros. Vejam o caso da comigo-ninguém-pode, que é uma planta ornamental muito linda que produz um látex urticante e venenoso. A sua toxicidade é devida à produção de cristais de oxalato de cálcio em forma de agulhas, as ráfides. Pode ser que sua ancestral não tivesse ráfides. Nesse caso, era provável que, frequentemente, as plantas fossem devoradas por diversos herbívoros. De repente, uma mutação fez com que uma planta passasse a produzir uma substância muito tóxica para esses herbívoros. Essa planta, não tendo sido devorada pelos herbívoros, por hipótese, uma lagarta, produziu muito mais sementes que as que não produziam a tal substância tóxica. Conseguindo viver mais tempo, deixava muito mais descendentes.  Suas sementes se espalharam de tal forma que a proporção de plantas que produziam a tal substância tóxica foi aumentando cada vez mais ao longo das gerações, até que sobrassem somente plantas produtoras da substância tóxica. Enquanto isso, aconteceu um outro fenômeno: uma mutação surgiu em um dos indivíduos da lagarta. Essa mutação permitia à lagarta que seu sistema digestivo decompusesse a tal substância. A lagarta conseguia se alimentar da comigo-ninguém-pode, mesmo que ela possuísse a substância tóxica. Somente as lagartas que tinham essa mutação conseguiam se alimentar adequadamente. Essas, a cada geração, deixavam muito mais descendentes do que aquelas que não sofriam com o efeito da substância tóxica. Resultado? Após algumas gerações, todas as lagartas existentes eram capazes de digerir a substância tóxica, mesmo que todas as plantas a produzissem. Ou seja, a tal substância não servia mais para proteger a planta da lagarta. Mas ambas haviam mudado. Isso é coevolução: as espécies se modificando ao longo das gerações em função da pressão de seleção resultante da relação com outras espécies. 

Esse fenômeno pode ter acontecido muitas vezes e de diversas formas ao longo da evolução da comigo-ninguém-pode. Em uma dessas vezes, houve uma mutação que fez com que a comigo-ninguém-pode produzisse ráfides. E é assim que as plantas possuem várias substâncias, sendo que algumas servem atualmente para algo e outras, que não causam nenhum efeito deletério na planta, foram ficando... e é por isso que hoje temos tantas plantas medicinais e aromáticas. 


Mas não é só para a defesa que a coevolução! Foi assim também que surgiram os cheiros e as cores espetaculares das flores que atraem insetos e pássaros que, por sua vez, possuem bicos e trombas do tamanho perfeito para chegar ao néctar. Foi assim, por meio da coevolução que se desenvolveram, por exemplo, as formas incríveis das orquídeas, parecidíssimas com os insetos que as polinizam. Quanto mais parecida com o inseto, maior a chance de polinização e maior a quantidade de descendentes. Geração após geração, a quantidade de flores mais parecidas com o polinizador era maior. 

Foi por meio da coevolução que boa parte da biodiversidade existente hoje no nosso planeta surgiu. 

A domesticação, por outro lado, é o processo pelo qual as plantas e os animais que nós, humanos, usamos para suprir as nossas necessidades são modificadas por nós, ao longo das gerações, conscientemente, de forma que as modificações atendam aos nossos interesses. É assim que hoje há milhos com grãos e espigas grandes e nutritivos bem diferentes dos grãos da planta que lhe deu origem, o teosinte. Agricultores e agricultoras, ao longo das gerações, escolheram os grãos maiores e mais produtivos, e o milho foi sendo transformado para atender aos nossos interesses.

Venho pensando sobre algumas plantas que nós, humanos, usamos há muitas gerações na forma de chás, medicinas, magias. As plantas medicinais, aromáticas e mágicas. Há milênios, plantas como a sálvia, o manjericão ou a mirra vêm sendo plantadas e utilizadas pelos seres humanos. E há milênios nós as podamos e colhemos. Acho que é por isso que muitas plantas exigem que as podemos para continuarem vivas. O manjericão é assim. Se não for podado quando está em flor, acaba morrendo logo depois de florescer. Se o podamos na época certa, pode continuar vivendo por anos. É assim também com a pimenta. Ela fica muito mais saudável se estamos sempre colhendo seus frutos. Se os deixamos secar na planta, ela acaba definhando e morrendo. Umas espécie de dependência é criada ao longo do processo de domesticação! Vejam o que acontece com os animais domésticos. São quase que totalmente dependentes de nós. Até afetivamente, como acontece com os cães. 

Na domesticação, a relação é unidirecional. Humanos selecionando e modificando animais e plantas. Na coevolução, ambas as espécies envolvidas se modificam como resultado da relação entre elas. 

Assim, temos, há milhares de anos, provocado mudanças nas plantas como resultado da seleção das sementes para plantio e como resultado do manejo ao qual as submetemos. E nós, humanos? Essas relações que temos com as plantas e os animais... como têm nos modificado? O que estamos dispostos a deixar plantas e bichos modificarem em nós? Ainda que mais para a poesia do que para a ciência, penso que vale pensarmos em como nossa relação com as plantas e com os animais pode nos levar a (co)evoluirmos para o benefício de ambos. 

Revirando teoria e ciência pelo avesso, sonho com a possibilidade de que a co-evolução deixe de parecer somente uma corrida para ver quem é que vai se dar melhor mas, ao contrário, que seja o impulso que nos conduza mais rápido às mudanças necessárias para que alcancemos logo o mundo de paz e abundância que todos desejamos... 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sustentabilidade e Sistemas Agroflorestais na Construção de Sociedades Sustentáveis - VII CBSAF


Postei no youtube o segundo episódio da série de filmes que fiz a partir de imagens gravadas durante o VII CBSAF (Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais), realizado pela Embrapa, em parceria com o Mutirão Agroflorestal, A EMATER-DF e a Sociedade Brasileira de Sistemas Agroflorestais. Foi um evento realmente incrível, tanto pela temática (o Diálogo de Saberes) quanto pelo formato. Pesquisadores, técnicos, agricultores e estudantes foram convidados a participar ativamente. Foram estimulados a compartilhar seus saberes, pensamentos e conhecimentos de uma forma como eu nunca tinha visto em nenhum evento científico. Conhecimento científico e conhecimento vivencial em pé de igualdade. Ernst Götsch, meu Mestre e amigo, respondeu, quando lhe perguntamos o que ele havia visto de novo nesse evento, que era o fato de que todos, possuindo ou não bens materiais acumulados, tiveram a mesma oportunidade de falarem e de serem ouvidos. Pois é assim que acredito na educação emancipadora e geradora de autonomia. Uma educação que não considere o aprendiz (criança, adulto ou idoso) um saco vazio a ser preenchido com um conhecimento superior. Todos temos o que dizer, todos temos experiências para compartilhar e para gerar reflexões e aprendizados. Todos temos algo a dizer sobre qualquer coisa. Quando começarmos a ouvir e considerar todos os pontos de vista, todas as experiências acumuladas por tanta diversidade de pensamentos e vivências, começaremos a avançar na construção de sociedades realmente sustentáveis. Que seja assim!