O que estamos fazendo com o nosso planeta, com os nossos corpos e com as nossas relações me estarrece. Minha militância e serviço tentando compreender e agir diante desse cenário é permanente. Os que me conhecem sabem disso.
Ainda não consegui elaborar muito bem o que penso e sinto diante disso tudo que está acontecendo. Alguns dizem que vivemos um momento histórico. Outros estão começando a ficar apavorados com a ideia da volta violenta da direita.
Sim... queremos mudança. Vivemos tempos de intolerância, dor e injustiça que estão chegando a limites insuportáveis. Está claro que o caminho que tomamos está errado e que algo deve ser feito.
De um lado, desejo firmemente a paz e a não violência. Acredito no caminho do diálogo e da compreensão mútua. Acredito no caminho do acolhimento e do amor incondicional.
De outro lado fico pensando... será que alguém acredita que uma mudança pela via política pode acontecer sem perda nenhuma? Pensar em uma revolução sem uma gota de sangue, sem nenhum vidro quebrado é algo realista? Alguém realmente acredita que os que se beneficiam da realidade que vivemos abrirão mão gentil e pacificamente de suas regalias? Alguém realmente acredita que os viciados em dinheiro e poder vão largar o osso sem reação? Alguém realmente acredita que, do jeito que a humanidade anda doente, não haverá loucos no meio da multidão?
Acho muito curiosas a indignação com o vandalismo e a perplexidade diante das contradições. Não defendo a violência, muito menos o vandalismo. Jamais. Mas também não acho que podemos ser ingênuos a ponto de achar que sairemos sem nenhum arranhão desse embate com os dententores do poder.
Como fazer, então, a mudança tão urgente e necessária? Que tal começar dentro da gente hem? Que tal começar parando de fazer as barbaridades que fazemos no nosso dia-a-dia com nossas crianças (que, pasmem) ainda apanham muito? Que tal tratarmos nossas crianças com respeito e amor, mostrando-lhes o valor da amizade e da solidariedade, ensinando-lhes que a vida vale mais do que o dinheiro e que a felicidade reside em amarmos e sermos amados e não em ter coisas e mais coisas, status e poder? Que tal ensinarmo-lhes a cooperação e vivermos em coerência com o que queremos lhes ensinar? Se ensinamos nossos filhos a serem competitivos, a acreditarem que uns valem mais que outros, que elas devem vencer em detrimento do fracasso dos outros, que suas necessidades são mais legítimas do que as dos outros, que mundo se espera que construam?
Não interessa qual regime político vivemos, qual o partido (ou não partido) que está no poder, que estruturas inventamos para organizar a sociedade. Todos fracassarão enquanto o ser humano viver na perspectiva da fragmentação do Ser que se apoderou de nós desde que nos desconectamos dos ciclos da vida.
Somente depois de catarmos nossos caquinhos, juntarmos nossos fragmentos, reconectarmo os batimentos do nosso coração com os batimentos do coração da Mãe Terra, nossa casa, nosso lar, nossa fonte de vida, é que conseguiremos sair pelas ruas numa grande marcha pacífica, unindo nossos corações em comunhão de interesses.
Enquanto isso... temo (com o coração apertado) que teremos algumas baixas...
Vamos acelerar o processo então e fazer nossa lição de casa?
Ting é o hexagrama 50 do I Ching. O Caldeirão. Acima: LI, O ADERIR, FOGO. Abaixo: SUN, A SUAVIDADE, VENTO. Minha própria tradução. Um caldeirão borbulhando de idéias, sonhos e movimento. Que dele transborde alimento para a alma. Para a minha e para a de todos os que por aqui passarem. Buniting, para carregar no nome buniteza.
Todo o conteúdo deste Blog é de minha autoria (fotos, textos, filmes), salvo menção expressa. A reprodução é permitida, desde que: a) não haja edição; b) sejam dados os devidos créditos e citada a fonte; e c) não seja feito uso comercial. Agradeço se me informarem.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Oficina "Ervas do Feminino"
As Ervas mágicas, medicinais e sagradas nos acompanham há milênios. Todos temos ancestrais que sabiam usá-las a favor do nosso bem estar e saúde. Há pouquíssimo tempo dependemos de remédios sintetizados para isso. Aliás, boa parte dos remédios que encontramos nas farmácias são feitos com princípios ativos que evoluíram na relação entre as plantas e animais.
No dia 30 de junho, eu e Andréa Boni, minha amiga, mestre e irmã, realizaremos uma oficina cujo objetivo será o de nos conectarmos cada vez mais e profundamente com a sabedoria e o poder das plantas. Entraremos nesse mundo mágico que pode nos contar tantas histórias, que pode nos acalmar, perfumar, curar e trazer beleza às nossas vidas. Visitaremos nossa ancestralidade em busca do conhecimento sagrado e antigo que ainda pulsa em nosso DNA.
Faça sua inscrição e venha passar um dia inesquecível conosco!
terça-feira, 28 de maio de 2013
Jardinagem Agroflorestal no CEMEIT - Taguatinga-DF
28 de maio, segunda oficina de jardinagem agroflorestal com jovens da EIT, Centro de Ensino Médio de Taguatinga-DF. Foi um convite do projeto Mapa Gentil (http://mapagentil.com.br), realizado pelos meu amigos e parceiros do Faísca Associação Cultural e pela Flávia, professora daquelas que nasceram para isso, vocacionada, entregue, inteira. Integrando-me, por meio da jardinagem, ao projeto e à EIT, começo devagarinho, ainda em processo de aproximação, sedução, conquista. Compartilho algumas imagens dessa nossa pequenina e riquíssima oficina (todas as fotos, com exceção das 2 últimas, foram feitas pela Ana Carolina Lima, aluna da EIT e participante da oficina):
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| Uma breve rodada de apresentação para sabermos os nomes uns dos outros. Que barato fazer uma atividade envolvendo alunos e professores para aprendermos juntos! |
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| Primeiro passo: tirar toda a sujeira do canteiro. |
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| Lixos diversos foram encontrados. |
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| Segundo passo: podar galhos e folhas velhos e secos. Aqui mostro como fazer. |
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| E aqui o Rafael pratica, podando um galho seco da azaléia... |
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| ... e folhas velhas da agave dragão. |
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| Depois de fazermos uma capina seletiva, Flávia e Ana Clara espalham o adubo orgânico sobre a terra do canteiro. |
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| Isabela mistura o adubo na terra e planta flores para o canteiro ficar alegre e colorido. |
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| Flávia semeia salsinha, uma das poucas hortaliças que suporta meia-sombra. Afinal, também é essencial inserirmos plantas comestíveis nos nossos jardins! |
Antes e durante a prática, conversamos sobre a função de cada ferramenta utilizada na jardinagem agroflorestal, sobre o conceito de Permacultura e de Cultura, sobre a poda das plantas como estratégia de dinamização dos sistemas, sobre a função da meso e microfauna do solo e também sobre os desafios culturais para o cultivo de jardins agroflorestais na cidade, já que esses exigem um solo densamente coberto e cheio de vida. As perguntas foram muitas... o que demonstrou o interesse dos participantes!
Agradeço o preciosa participação de cada um dos que estiveram presentes e ao Ministério da Cultura que, por meio do Prêmio Tuxaua, apóia minha participação nesse projeto tão desafiador quanto inspirador.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Quintais e Crianças: Vida e Movimento*
Tudo o que é vivo está em constante movimento.
Até o que parece, a primeira vista, estático, como por
exemplo uma planta ou uma rocha, assim parece somente porque a escala de tempo
dos humanos é diferente da escala de tempo desses Seres. As rochas se movem,
racham, deslocam-se, acumulam matéria e crescem, são intemperizadas e
transformam-se em solo. Muitos afirmam que rochas são seres vivos.
Há um filme na internet feito a partir de imagens da série
VIDA da BBC, narrada por David
Attenborough (http://vimeo.com/26332964). Filmado ao longo de dias,
meses, ou quem sabe anos, os realizadores mostram o delicado e sutil movimento
das plantas. Em seu crescimento, exploram espaços, sobem e descem, abrem-se em
flores coloridas. Mas olhos atentos podem ver o movimento das plantas mesmo sem
que seja necessário acelerar as imagens como nesse filme maravilhoso.
E as crianças? A definição de criança é movimento. Elas necessitam
do movimento para crescerem. Tendo a acreditar que crianças educadas em
ambientes e culturas muito sóbrios e rígidos, nos quais não podem se movimentar
livremente, tendem a se tornar adultos tristes. Se existe algum estudo a esse
respeito, gostaria de conhecê-lo.
Pedagogos, educadores e psicólogos que trabalham com
educação infantil são unânimes em dizer que o movimento é essencial para o
desenvolvimento intelectual e cognitivo da criança, assim como o é para seu
desenvolvimento físico. Para a criança pequena, o movimento é a forma de
conhecer o mundo e de se comunicar. Portanto, as crianças não ficam se mexendo
o tempo todo só para irritar os adultos (apesar de muitos pensarem e sentirem
assim). Elas se mexem porque o movimento é necessário à oxigenação de suas
células. Elas se mexem o tempo todo porque tudo lhes interessa. Oxigenadas,
suas células são ávidas por conhecer, experimentar, vivenciar, viver. Seu corpo
exige a movimentação constante para que os músculos se estendam, para que suas
veias e artérias se estiquem, para que suas sinapses se formem. Seu corpo exige
o movimento, para ficar forte e sustentar os ossos que crescem e o seu próprio peso,
que aumenta a cada dia. Deixar que a criança experimente e vivencie o movimento
livre e natural do seu corpo é essencial para que uma criança cresça feliz e
equilibrada.
O quintal agroflorestal, ele também está sempre em
movimento.
Vejo que muitos têm a expectativa de que chegará o dia em
que o quintal estará pronto. Isso não existe. A menos que seja gasta uma
quantidade enorme de energia para mantê-lo estático. Além de podas frequentes,
seria necessário utilizar adubos químicos e venenos sistematicamente para
evitar o movimento do jardim. Criaríamos assim jardins frios e hidrofóbicos,
que rejeitam a água e a vida.
Se o que desejamos é a vida em abundância e se o que
desejamos é viver em consonância com o fluxo da vida, é necessário deixarmos a
sucessão acontecer, as espécies se substituírem, plantas morrerem e outras surgirem.
Um quintal agroflorestal muda o tempo todo. Quando começamos
a acumular vida no solo, deixando-o abundantemente coberto com folhas e galhos
(serapilheira), as sementes trazidas pelo vento, pelas aves, morcegos e todo
pequeno animal que passar por ali germinam. Se for hábito levar para o quintal
agroflorestal todo o resto orgânico da cozinha, inclusive caroços e sementes,
então tomates, abóboras, manga, mamões e toda fruta que gostamos de comer
brotarão magicamente no quintal. Em um quintal agroflorestal vivo e dinâmico, uma
horta se transforma em pomar, o pomar volta a ser horta. A touceira de banana
se expande, anda, e ocupa novos cantos do quintal deixando para trás solo
fértil e mudas de frutíferas em crescimento. Árvores antigas se tornam adubo e
ornamentais de sombra se expandem em espaços onde antes havia sol em demasia
para elas. Em um quintal em movimento, nosso papel é o de espalhar sementes e
estacas por todo o canto e observar a linguagem das plantas que vão nos
mostrando os melhores ambientes para cada uma, as interações mais felizes com
suas vizinhas. A partir dessa observação, podemos, com nossa intervenção, por
meio do manejo, atuar de forma positiva, acelerando o movimento e o acúmulo
crescente de vida e abundância.
Por tudo isso, um projeto de quintal agroflorestal é somente
uma referência, um guia, uma direção a seguir, um lugar por onde começar, um
destino fictício a nos orientar. Não se
deve ter a expectativa de conseguir fazer um desenho exato de como estará o
quintal daqui a 10 anos. Isso seria ter a boba expectativa de que podemos
determinar exatamente como serão nossas crianças daqui a 10 anos. Tentativa
infrutífera que pode ter como consequência a frustração. Estejamos abertos ao
novo, ao inesperado, ao movimento. Que venham as sementes trazidas pelas aves
que descansam nos galhos das nossas árvores, que germinem aquelas que vão junto
com o resíduo orgânico da nossa cozinha. E que todas as crianças do mundo tenham
o direito de movimentar-se e tornar-se exatamente aquilo que fará delas pessoas
felizes.
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| chuvas de jan de 2011 |
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| seca de maio 2013 |
* Originalmente publicado na edição de abril/2013 do Jornal Deusa Viva, da Teia de Thea (www.teiadethea.org)
terça-feira, 2 de abril de 2013
Colheita na Abundância*
De repente, ouço um estrondo. Algo caiu lá no chão no
quintal. Logo penso que foi um abacate. Vou em busca dele por entre as
folhagens plantas, galhos, raízes... e encontro a maior graviola que eu já vi e
toda minha vida. Inteirinha. Sem um machucado. Oferecendo-se. Quando a abri,
não pude acreditar em meus olhos. Um branco que não é cor de tinta branca. É
cor de branco da natureza. Nenhum machucado, nenhum bichinho intruso, nenhum
pretinho daqueles que geralmente acompanham as graviolas que colho no meu quintal.
Não ligo para eles e os bichinhos que os provocam. Sempre ainda sobra muita
graviola para suco, cremes e mousses. Mas confesso que foi impactante ver
aquele fruto tão saudável, tão inteiro, tão branco e tão majestoso ali na minha
frente.
Outra vez, foi parecido. Daquela vez, eu estava na varanda
pensando no que faria para o almoço. De repente, aquele som surdo de coisa
caindo em cima da serapilheira que cobre o chão da minha florestinha. Era um
abacate. Enorme e maduro. Prontinho para virar guaca mole. Um luxo. O abacate
do meu quintal já está famoso de tão bom que ele é. Fruto enorme, caroço
pequeno. Muita polpa, verde clara, sem fio, macia, sedosa e saborosa. De vez em
quando encontro alguém que não vejo há tempos: “Ei, quando vamos colher abacate
no seu quintal de novo?”. O abacateiro é tão grande que é necessário uma
operação especial para a colheita. No mínimo 3 pessoas. Uma para subir e cortar
com o podão o pendão do fruto. E dois para segurarem o pano lá embaixo que
amortecerá a queda do abacate lançado lá de cima pela primeira pessoa. Como é
uma trabalheira subir lá no topo, já colhemos tudo o que damos conta. No mínimo
20 de cada vez. Depois dividimos a colheita entre os participantes.
Abundância...
A abundância é a regra da natureza. Ela sempre está em busca
de produzir excedentes para que todos tenham fartura. Os sistema naturais,
quando estão muito doentes e degradados, precisam de um tempo para acumular matéria
e energia. Depois desse período de acumulação, começa o período de prosperidade
no qual a produção é maior do que a necessária somente para a própria
manutenção. Produção de frutos, sementes, folhas, raízes, galhos... Abundância
que permite que cada vez mais seres possam ali se fartar. O sistema vai se
tornando cada vez mais rico e complexo. Quando a abundância é muito grande, o
sistema até pode exportar essa abundância e ajudar na recuperação de outros
sistemas ao redor.
Então, primeiro o sistema acumula, depois exporta. Inverter
as coisas é um desastre. Tentar extrair matéria e energia de um sistema que
ainda está em acumulação é sempre uma operação muito delicada. Deve-ser fazer
com muita cautela para evitar que o sistema emperre, se machuque ou até volte
para trás. Há que se pensar sempre em como ajudar o sistema a ir para frente,
para a abundância, e não o contrário. Mas, quando a gente chega na
abundância... ahhhh... é o deleite, a colheita farta, a tranquilidade, a paz...
e podemos então (devemos?) dividir, espalhar, doar.
Mas para chegar lá, muito serviço. O bom, é que no quintal,
o serviço é bom demais... cortar, picar, podar, plantar, cobrir o solo, semear,
cuidar. A natureza só pede que sigamos seu fluxo. Observando, interagindo,
entrando em contato empático com a natureza, ela nos mostra o que devemos fazer
para ajudá-la. Aguçar os sentidos é a nossa tarefa. Uma tarefa que não acaba
nunca pois que sempre mais profundamente é possível entrar nessa relação de
intimidade entre seres. Entre todos os seres.
Mas mais do que serviço, também bastante paciência.
Paciência para esperar, serenamente e, em serviço, a colheita e a abundância.
* texto originalmente publicado no Jornal Deusa Viva, da Teia de Thea (teiadethea.org), edição de março de 2013.
terça-feira, 26 de março de 2013
Mutirão Agroflorestal, a Alegria de Fazer Parte
O Mutirão Agroflorestal, organização e movimento dos quais faço parte desde os seus inícios respectivamente em 2003 e 1996, surgiu no desejo que um grupo de amigos tinham de fazer parte, de participar, de agir, de aprender fazendo e, principalmente, de fazer tudo isso juntos. Naquela época, eu quase nada sabia sobre Agrofloresta. Passados 17 anos, a Agrofloresta se tornou meu modo de ver o mundo, o viés pelo qual penso, sinto e ajo. Naquele início, fazíamos encontros a cada um ou dois meses, viajando para sítios, chácaras e fazendas de agricultores ou de algum de nós mesmos, para praticar, plantar, manejar, celebrar, dançar, cantar e, principalmente, para estarmos juntos. O tempo passou, o movimento se tornou organização não governamental. Nos espalhamos pelo país, pessoas sumiram, outras chegaram. Projetos, sonhos, consultorias, palestra e eventos depois, é nos mutirões agroflorestais que nos sentimos mais Mutirão Agroflorestal. É no manejo, no plantio, no exercício da convivência em alegria e respeito que nos sentimos parte dessa família. Mesmo quando apenas alguns de nós podem estar presentes, os outros distantes ou atarefados, sentimos a presença de cada um dos que tanto nos ensinaram e inspiraram. E é com as mãos nas plantas, sementes e terra que nos sentimos realmente participando do ciclo da vida.
Essas palavras saem dos meus dedos inspiradas por um fim-de-semana cheio de mutirão agroflorestal. No domingo, dia 24, renova-se a amizade e parceria com Mangala e seu Ateliê Angico para realizarmos juntos um mutirão de manejo. Pessoas queridas e outras desconhecidas juntam-se a nós nessa aventura que é o serviço totalmente desprendido de trabalhar para deixar um pedacinho do Planeta mais bonito e cheio de vida. Gratidão, Mangala!
Foto: Marco Gonçalves
Antes de começar, em círculo, combinamos o que vamos fazer. Muita gente nova, é necessário alinharmos alguns conceitos.
Foto: Marco Gonçalves
Um dos grupos dedicou-se ao manejo de uma touceira de banana! E a galera caprichou: assim é que se faz ao cortar os pseudocaules que já produziram, deixando esse funil para evitar a propagação do moleque da bananeira.
Foto: Marco Gonçalves
Outros, como eu e esses todos que estão na foto, nos dedicamos a cortar tudo o que estava velho, podar o que precisava ser podado para depois cobrir bem o solo, principal tarefa do agroflorestador. Vejam só na foto aí embaixo como Narmada e Luciana dedicam-se concentradamente a essa tarefa tão essencial.
Foto: Marco Gonçalves
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| Foto: Marco Gonçalves |
Surpresa surpreendente e celebrada, a aranha carrega seus ovos fugindo dos nossos facões.
Foto: Marco Gonçalves
Mudas de ipê, café, cajá, tangerina, jatobá, siriguela e sementes diversas vão para o chão, lá onde é o seu lugar. Ah... taí uma das coisas mais gostosas do mundo... plantar...
Foto: Marco Gonçalves
Mudas de ipê, café, cajá, tangerina, jatobá, siriguela e sementes diversas vão para o chão, lá onde é o seu lugar. Ah... taí uma das coisas mais gostosas do mundo... plantar...
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| Foto: Eduardo Rombauer |
O que mais me emocionou?
A fala de um dos participantes, ainda novato em mutirões agroflorestais, quando partilhou seu sentimento de surpresa com a leveza e amorosidade com que nós realizamos nossa tarefa. O grande barato do mutirão agroflorestal é que transformamos não somente o lugar onde realizamos nossa intervenção, mas também aquecemos os nossos corações, unindo-os uns aos outros em sonhos comuns. Que sonhos? Sonhos de paz e abundância para todos os Seres. É assim um mutirão agroflorestal.
Agradeço ao Marco Gonçalves que registrou tudo e cedeu as fotos para que publicássemos aqui. Valeu Marco! Exceção de autoria é a foto do grupo, feita pelo Eduardo Rombauer para que o Marco pudesse aparecer!
Quer ver mais e outro jeito de contar a história? Visite o blog do Ateliê Angico que a postagem da Mangala tá show: http://www.atelieanjico.blogspot.com.br/2013/03/mutirao-agroflorestal-2.html
domingo, 3 de março de 2013
Gratidão ao Quintal Agroflorestal*
Passo o dia procurando prá lá e
prá cá, rodando como barata tonta pela casa, procurando anotações, lendo trechos
de livros, textos, artigos e finalmente, já de madrugada, vou para o quintal em
busca de inspiração para escrever este artigo. Adentro um quintal totalmente
diverso daquele que encontrei há pouco, no meio da tarde. Outros sons, outros movimentos.
O ruído dos cupins trabalhando, um farfalhar rápido de folhas que denuncia a
passagem de algum animal, ruídos leves de bichinhos diversos e ocultos. Aves,
répteis, insetos? Penumbras, sombras, luzes de lâmpadas de postes atravessando
os espaços há poucas horas ocupados pelos raios do sol. Aos poucos, meus olhos
se acostumam com as cores da noite e os vultos começam a se tornar familiares.
Sento-me em um dos cantinhos mais
aconchegantes do quintal, sob o enorme abacateiro. Ao lado, a jabuticabeira
exibe na penumbra recortada por rajadas de luz sintética os seus galhos
tortuosos que se entrelaçam em um balé em câmera lentíssima, invisível à maior
parte dos olhos humanos acostumados com a alta velocidade da vida moderna. Olho
para cima e percebo que as folhas do guapuruvu estão todas fechadinhas deixando
a luz da lua chegar até o cafeeiro que se encontra logo abaixo, como persianas
abertas para deixar a luz entrar na casa. Fantasio que o guapuruvu fecha suas
folhinhas só para presentear o cafezinho com um banho de luar.
Fico esperando a inspiração
chegar... e nada.
Resolvo caminhar, lentamente,
observando, procurando pistas e dicas.
Encontro uma mudinha pequenina de
cupuaçu que plantei há cerca de 1 mês. Ela começou a lançar folhas novas,
peludas, vermelhas. Sinal de que está feliz naquele lugar. Meu coração se
alegra e se enche de amor. Olho em volta. No raio de 3 metros de onde estou,
olho em todas as direções e conto 34 diferentes espécies. As que consigo ver
naquela meia luz. Algumas com vários representantes. Todas ali ao meu redor, ao
alcance dos meus olhos, da minha voz e da minha intenção. E me sinto inteira
gratidão. Conheço cada um desses seres. Alguns já estavam ali quando cheguei,
outros chegaram trazidos pelo vento ou pelos passarinhos, mas grande parte foi
plantada por mim. Lembro das sementes que lancei e não germinaram, das mudas
que plantei e morreram, das árvores que participaram dos meus experimentos de
poda e não sobreviveram. Logo ali, um pequeno açaizeiro nascido de sementes
presenteadas por amigo querido lança dois perfilhos, dois brotinhos laterais
que formarão a touceira. Ao seu lado, um ingá de metro que podei no último
manejo, feito na colheita dos frutos suculentos com gosto de infância. O chão
ao redor todo coberto com a generosa massa resultante desse manejo. Atrás de
mim, pendura-se um maracujá quase maduro. O último desse pé. Acima, o majestoso
ipê roxo, agora todo folhoso, cuida de todos nós aqui embaixo. Agarrada ao seu
tronco, uma orquídea abriu, nesta semana, 4 flores que recebem os visitantes na
entrada no nosso lar...
Percebo o resultado do manejo que
fiz nesse lugar há poucos dias. O jardim todo responde com beleza ao cuidado
que lhe dediquei. As formas harmônicas, as folhas reluzentes, as cores, a
diversidade de tamanhos, arquiteturas, a beleza de cada uma daquelas plantas,
tão diferentes uma das outras, e todas igualmente belas. Sinto-me como quando
estamos em uma festa cheia de amigos queridos. Sinto-me rodeada de vida.
Imagino a vida existente sob a serapilheira, os bichinhos todos trabalhando
incansavelmente para adubar meu jardim. E sinto a gratidão invadir meu ser.
Agradeço a companhia, os aprendizados, a beleza e a abundância. Declaro o meu
amor. E quanto mais declaro meu amor, maior a intimidade que nos une. E a
intimidade amplifica o meu amor.
Meu quintal é como uma criança
pequena. Se não lhe dou atenção, ele fica com cara de abandonado, com excessos
aqui e faltas ali, coisas secas por cima de coisas vivas, uma bagunça aos
sentidos, ninhos de vespas que se formam aproveitando minha ausência. Ao
contrário, se lhe dou atenção, mesmo que não seja o tanto de tempo que ambos
gostaríamos, mesmo que eu não dê conta de manejar o quintal inteiro; todo ele
desabrocha, fica lindo e declara seu amor por mim em beleza explícita. Quando
estou inteira, quando me entrego à nossa experiência de interação, quando ouço,
olho, observo, converso, presto atenção... meu quintal, assim como uma criança
manhosa, deixa de gemer. Ao contrário, sorri e fica colorido. Depois de algum
tempo distante, voltei a dedicar algumas horas diárias ao cuidado com o
quintal. E lindo, ele me agradece. Sinto vontade de filmá-lo novamente, de
mostrar os novos habitantes, novos ângulos, novos pontos de vista. Sinto-me
invadida pela inspiração e imagino o filme que acontecerá. Não sei se a
experiência rendeu um texto, mas certamente resultará em um filme!
* Texto originalmente publicado na edição de março de 2013 do jornal "Deusa Viva"da Theia de Thea (www.teiadethea.org)
* Texto originalmente publicado na edição de março de 2013 do jornal "Deusa Viva"da Theia de Thea (www.teiadethea.org)
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