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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Darwinismo Social e Complexidade

Encontro no meio do artigo de Lúcia Nagib sobre arqueologia na América Latina datado de outubro de 2000 publicado no caderno Mais! da Folha de São Paulo: "(...) como as do darwinismo social, que propunha que as sociedades complexas seriam superiores às simples." (...). 

Independentemente do contexto em que se encontrava a frase, reencontrá-la me impactou:

O que significa essa concepção?
O que é uma sociedade complexa?
Quais os indicadores de complexidade?
O que é complexidade?
O que é mais complexo? Que todos os produtos fabricados com milho encontrados em todas as prateleiras de todos os supermercados utilizem menos de uma dezena de genótipos exatamente iguais da uma dezena (um chute) de variedades transgênicas existentes no mercado hoje? Ou será que é mais complexo o cultivo familiar de milhares de diferentes genótipos refletidos nas centenas de variedades crioulas selecionadas por gerações e gerações de agricultores e agricultoras, cada um desses genótipos adaptados a um microambiente específico, a ser plantado em uma determinada época e que será utilizado para centenas de diferentes finalidades e receitas?
Qual desses dois cenários contém conhecimento mais complexo?
Qual deles necessita de relações interpessoais mais complexas?
Qual deles trabalha em um ambiente natural mais complexo?
Que sociedade, então, segundo o darwinismo social, estaria mais próxima de ser superior?
Mas a ideia de "sociedade superior" também me apavora.
Haveria possibilidade de convivência? 
Como seria isso?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Seca em Dezembro?*


Estamos em Dezembro. Não chove há quase uma semana! No quintal, as plantas secam.
Penso logo nos agricultores que plantaram somente há duas semanas. Penso nas sementes recém germinadas, nas pequenas plantinhas surgindo. As raízes ainda pequeninas não estão prontas para buscar a água do fundo da terra. O seu corpinho ainda não acumulou água suficiente para agüentar mais que três ou quatro dias sem chuva. Uma semana sem chover pode ser fatal. Se isso acontecer, todo o esforço e as sementes serão perdidos. E se só havia aquelas sementes? E se não houver mais sementes guardadas para plantar? E se aquela variedade adaptada àquele lugar vem sendo plantada incansavelmente ano após ano há muitas gerações? De repente, uma semana sem chuva faz desaparecer para sempre aquela combinação de genes selecionados durante tantas gerações de plantios e colheitas...
As chuvas começaram tarde esse ano. Um mês mais tarde do que no ano passado. Mas quem plantou, disciplinadamente, na primeira semana de chuvas, no meio de novembro, provavelmente não perderá sua colheita. As plantas talvez sofram um pouco com esse veranico fora de hora, mas com quase um mês e meio crescendo no solo, estarão grandes o suficiente para terem acumulado a água que as manterá vivas durante alguns dias de inesperada seca. As raízes já afundaram no solo e conseguem acessar a água que se acumulou sob a superfície com as primeiras chuvas intensas. Se o solo estiver coberto com matéria orgânica, melhor ainda e maiores as chances de sobrevivência. É nessa hora que um solo coberto faz toda a diferença!
É claro que aqueles que podem ter um sistema de irrigação nada sofrem, mesmo que tenham plantado um pouco mais tarde. Mas quem pode? A agricultura familiar que cuida das variedades adaptadas localmente ou as empresas rurais que plantam sementes hibridas e transgênicas? Está claro quem mais sofre com as consequências das mudanças do clima? E qual o custo ambiental dos sistemas de irrigação? Quando sabemos que 70% da água potável vêm sendo utilizados para a irrigação dos cultivos e que, aos poucos, os aqüíferos superficiais e de sub-superfície vêm sendo aceleradamente esgotados e poluídos, podemos concluir que quem pagará esse custo não é quem irriga hoje, mas sim nossos filhos e netos que não terão água para beber se continuarmos explorando os recursos hídricos da forma como estamos fazendo atualmente.
Conhecer os ciclos da natureza é, há milênios, mais do que necessário. É uma questão de sobrevivência. Quem foi disciplinado e conhece os ciclos da natureza, plantou no meio do mês de novembro. E não plantou todas as sementes que tinha. Quem se atrasou, por um motivo ou por outro, e não dispõe de um sistema de irrigação, está a ver suas plantas morrerem com esse veranico fora de hora.
Há o momento certo de plantar para que a colheita seja abundante. O momento de plantar – literalmente – as roças que nos alimentarão em 2013 coincide, no nosso calendário romano, com o final de um ciclo solar, momento de parada para as festas de fim de ano e, para muitos, momento de tirar férias e descansar. Momento também de plantar nossos sonhos e, mais do que isso, colocar a semente de fato na terra, no momento certo, disciplinadamente, sem adiarmos nenhuma semana. Assim, nenhuma seca inesperada nos pegará de surpresa. Nossas plantinhas já estarão em franco crescimento, forte e resistentes e aguentarão alguns dias de veranico.    

* Originalmente publicado na edição de dezembro do Jornal "Deusa Viva", da Teia de Thea (www.teiadethea.orgwww)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Plantas e Humanos em Coevolução

Em genética de populações, coevolução é o fenômeno pelo qual diferentes espécies se modificam ao longo das gerações como resultado da interação que acontece entre elas.

Um exemplo clássico é a evolução de muitas das substâncias de defesa produzidas pelas plantas. As plantas que consideramos venenosas são plantas que produzem substâncias tóxicas que as protegem do ataque dos herbívoros. Vejam o caso da comigo-ninguém-pode, que é uma planta ornamental muito linda que produz um látex urticante e venenoso. A sua toxicidade é devida à produção de cristais de oxalato de cálcio em forma de agulhas, as ráfides. Pode ser que sua ancestral não tivesse ráfides. Nesse caso, era provável que, frequentemente, as plantas fossem devoradas por diversos herbívoros. De repente, uma mutação fez com que uma planta passasse a produzir uma substância muito tóxica para esses herbívoros. Essa planta, não tendo sido devorada pelos herbívoros, por hipótese, uma lagarta, produziu muito mais sementes que as que não produziam a tal substância tóxica. Conseguindo viver mais tempo, deixava muito mais descendentes.  Suas sementes se espalharam de tal forma que a proporção de plantas que produziam a tal substância tóxica foi aumentando cada vez mais ao longo das gerações, até que sobrassem somente plantas produtoras da substância tóxica. Enquanto isso, aconteceu um outro fenômeno: uma mutação surgiu em um dos indivíduos da lagarta. Essa mutação permitia à lagarta que seu sistema digestivo decompusesse a tal substância. A lagarta conseguia se alimentar da comigo-ninguém-pode, mesmo que ela possuísse a substância tóxica. Somente as lagartas que tinham essa mutação conseguiam se alimentar adequadamente. Essas, a cada geração, deixavam muito mais descendentes do que aquelas que não sofriam com o efeito da substância tóxica. Resultado? Após algumas gerações, todas as lagartas existentes eram capazes de digerir a substância tóxica, mesmo que todas as plantas a produzissem. Ou seja, a tal substância não servia mais para proteger a planta da lagarta. Mas ambas haviam mudado. Isso é coevolução: as espécies se modificando ao longo das gerações em função da pressão de seleção resultante da relação com outras espécies. 

Esse fenômeno pode ter acontecido muitas vezes e de diversas formas ao longo da evolução da comigo-ninguém-pode. Em uma dessas vezes, houve uma mutação que fez com que a comigo-ninguém-pode produzisse ráfides. E é assim que as plantas possuem várias substâncias, sendo que algumas servem atualmente para algo e outras, que não causam nenhum efeito deletério na planta, foram ficando... e é por isso que hoje temos tantas plantas medicinais e aromáticas. 


Mas não é só para a defesa que a coevolução! Foi assim também que surgiram os cheiros e as cores espetaculares das flores que atraem insetos e pássaros que, por sua vez, possuem bicos e trombas do tamanho perfeito para chegar ao néctar. Foi assim, por meio da coevolução que se desenvolveram, por exemplo, as formas incríveis das orquídeas, parecidíssimas com os insetos que as polinizam. Quanto mais parecida com o inseto, maior a chance de polinização e maior a quantidade de descendentes. Geração após geração, a quantidade de flores mais parecidas com o polinizador era maior. 

Foi por meio da coevolução que boa parte da biodiversidade existente hoje no nosso planeta surgiu. 

A domesticação, por outro lado, é o processo pelo qual as plantas e os animais que nós, humanos, usamos para suprir as nossas necessidades são modificadas por nós, ao longo das gerações, conscientemente, de forma que as modificações atendam aos nossos interesses. É assim que hoje há milhos com grãos e espigas grandes e nutritivos bem diferentes dos grãos da planta que lhe deu origem, o teosinte. Agricultores e agricultoras, ao longo das gerações, escolheram os grãos maiores e mais produtivos, e o milho foi sendo transformado para atender aos nossos interesses.

Venho pensando sobre algumas plantas que nós, humanos, usamos há muitas gerações na forma de chás, medicinas, magias. As plantas medicinais, aromáticas e mágicas. Há milênios, plantas como a sálvia, o manjericão ou a mirra vêm sendo plantadas e utilizadas pelos seres humanos. E há milênios nós as podamos e colhemos. Acho que é por isso que muitas plantas exigem que as podemos para continuarem vivas. O manjericão é assim. Se não for podado quando está em flor, acaba morrendo logo depois de florescer. Se o podamos na época certa, pode continuar vivendo por anos. É assim também com a pimenta. Ela fica muito mais saudável se estamos sempre colhendo seus frutos. Se os deixamos secar na planta, ela acaba definhando e morrendo. Umas espécie de dependência é criada ao longo do processo de domesticação! Vejam o que acontece com os animais domésticos. São quase que totalmente dependentes de nós. Até afetivamente, como acontece com os cães. 

Na domesticação, a relação é unidirecional. Humanos selecionando e modificando animais e plantas. Na coevolução, ambas as espécies envolvidas se modificam como resultado da relação entre elas. 

Assim, temos, há milhares de anos, provocado mudanças nas plantas como resultado da seleção das sementes para plantio e como resultado do manejo ao qual as submetemos. E nós, humanos? Essas relações que temos com as plantas e os animais... como têm nos modificado? O que estamos dispostos a deixar plantas e bichos modificarem em nós? Ainda que mais para a poesia do que para a ciência, penso que vale pensarmos em como nossa relação com as plantas e com os animais pode nos levar a (co)evoluirmos para o benefício de ambos. 

Revirando teoria e ciência pelo avesso, sonho com a possibilidade de que a co-evolução deixe de parecer somente uma corrida para ver quem é que vai se dar melhor mas, ao contrário, que seja o impulso que nos conduza mais rápido às mudanças necessárias para que alcancemos logo o mundo de paz e abundância que todos desejamos... 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sustentabilidade e Sistemas Agroflorestais na Construção de Sociedades Sustentáveis - VII CBSAF


Postei no youtube o segundo episódio da série de filmes que fiz a partir de imagens gravadas durante o VII CBSAF (Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais), realizado pela Embrapa, em parceria com o Mutirão Agroflorestal, A EMATER-DF e a Sociedade Brasileira de Sistemas Agroflorestais. Foi um evento realmente incrível, tanto pela temática (o Diálogo de Saberes) quanto pelo formato. Pesquisadores, técnicos, agricultores e estudantes foram convidados a participar ativamente. Foram estimulados a compartilhar seus saberes, pensamentos e conhecimentos de uma forma como eu nunca tinha visto em nenhum evento científico. Conhecimento científico e conhecimento vivencial em pé de igualdade. Ernst Götsch, meu Mestre e amigo, respondeu, quando lhe perguntamos o que ele havia visto de novo nesse evento, que era o fato de que todos, possuindo ou não bens materiais acumulados, tiveram a mesma oportunidade de falarem e de serem ouvidos. Pois é assim que acredito na educação emancipadora e geradora de autonomia. Uma educação que não considere o aprendiz (criança, adulto ou idoso) um saco vazio a ser preenchido com um conhecimento superior. Todos temos o que dizer, todos temos experiências para compartilhar e para gerar reflexões e aprendizados. Todos temos algo a dizer sobre qualquer coisa. Quando começarmos a ouvir e considerar todos os pontos de vista, todas as experiências acumuladas por tanta diversidade de pensamentos e vivências, começaremos a avançar na construção de sociedades realmente sustentáveis. Que seja assim!

Mato Amigo*


No meio agronômico, chama-se mato tudo aquilo que você não quer ver crescer na sua lavoura. Essas plantas indesejadas também são chamadas de ervas daninhas, ervas más ou plantas invasoras. Imagino que devam existir dezenas de nomes regionais para essas plantas não queridas pelas pessoas.
Na ideia antropocêntrica de se fazer agricultura, o primeiro passo é limpar a terra. Tirar da frente tudo o que for verde ou se mexer. Depois de limpa, planta-se nessa terra as sementes daquilo que se deseja colher. Geralmente, só uma coisa. Chama-se a isso de monocultivo. Cultivo de uma única espécie.
Enquanto o que desejamos colher cresce, todo o resto é considerado mato, erva daninha ou planta invasora quando entra na nossa área. Qualquer planta que se atrever a germinar naquele solo será arrancada, cortada ou envenenada. Não há a menor chance de sobrevivência para qualquer outra espécie que não seja a espécie desejada pelo ser humano que possui aquele pedaço de chão.
Depois que a planta desejada crescer e produzir aquilo que o homem quer, se for uma planta anual como o milho, a soja ou o feijão, morrerá e a terra ficará limpa novamente para que o esse ciclo recomece.
As plantas daninhas são, em regra, odiadas ou às vezes, só temidas. Há livros e livros dizendo como podemos nos livrar delas. Técnicas diversas, listas enormes de venenos.
Antigamente, pois, eu também olhava para elas com incômodo. Não sabia o que pensar e ficava chateada quando cresciam no meu jardim. Ai, que trabalheira... preciso arrancar tudo aquilo... quanto tempo vai me tomar...
Hoje, tudo se transformou. Sou grata a cada uma delas individualmente e a todas coletivamente. Elas dão colorido ao meu quintal e estão sempre dispostas a me ajudar a cobrir o solo quando faço o manejo. Sinto sua falta quando preciso de matéria orgânica e não há nada disponível e tenho que trazer de fora. Sinto que há algo errado. De vez em quando, aparece uma visita casual que me conta que o chá daquela é bom para o estômago e que a flor daquela outra é comestível. Vou descobrindo pouco a pouco que todas elas tem uma função, um dom, uma habilidade, uma forma de contribuir para que meu quintal seja mais bonito e produtivo.
Percebi também que gostam de ser manejadas. Algumas crescem rápido depois de podadas, fornecendo rotineiramente a matéria orgânica que preciso para o dia-a-dia. Outras dão florezinhas lindas e delicadas e morrem. Se cortamo-nas logo depois de florescerem, curtimos as flores e ainda aproveitamos o restinho de massa para cobrir o solo. Coloco algumas das mais temidas em vasos e jardineiras onde, reinando, enfeitam e embelezam minha casa. Descubro novas formas de usá-las ao observar como se comportam, como crescem, como reagem à poda.
Hoje, quando manejo o quintal, sinto imensa gratidão por existirem. Convido-as a virem, a se apresentarem, a me revelarem seus segredos. Nenhuma é indesejada. Como jardineira, agradeço sua existência e utilizo-as.
As plantas que dão a maior parte do alimento hoje (trigo, milho, arroz, por exemplo), foram um dia plantas daninhas. A cevada era mato no meio do trigo. Tomou conta e para fazer uma limonada, os agricultores começaram a domesticá-la. Foi graças a milhares de gerações de agricultores e agricultoras que trigo, milho e arroz chegaram até nós. Foi com seu incansável trabalho de plantar, cuidar, colher, selecionar, plantar de novo, todos os anos, ano após ano, armazenando, trocando, distribuindo... que criaram centenas de variedades locais adaptadas a cada uma das específicas necessidades. De todas as cores, de todos os formatos e composições, o milho e o feijão são exemplos escandalosos. Ambos são latinoamericanos e foram domesticados, selecionados e adaptados por nossos ancestrais que viveram nessa terra antes de nós e aos quais devemos boa parte do nosso alimento. Além deles, a abóbora, o inhame, o cará, a mandioca. A pimenta e o amendoim.
E por onde anda toda essa diversidade? Desaparecendo sob o mesmo massacre que extermina ainda hoje nossos irmãos indígenas. Sob o massacre da uniformidade e do controle. Sob o massacre do lucro e da ganância. Sob o massacre que é para as culturas todas o controle privado da semente, que é a única possibilidade de futuro.
E nós? Que sementes vamos deixar para as próximas gerações?

*texto originalmente publicado no Jornal "Deusa Viva", da Teia de Thea, em sua edição de outubro.

Oficina de Manejo com o Ateliê Angico

O Mutirão Agroflorestal se fortalece quando nos juntamos para plantar, manejar, cuidar das plantas e do lugar onde vivemos. Oficinas e mutirões são momentos e espaços de muito aprendizado e troca. São oportunidades de crescermos como seres humanos comprometidos com a mudança que queremos ver no mundo.
Foi assim que aconteceu na Chácara Murici, durante a oficina "Quintal Agroflorestal: Manejo na Seca" no dia 16 de setembro. Logo em seguida, Mangala, nossa anfitriã, nos regalou com uma linda postagem no blog do Ateliê Angico. Registro aqui para rever, relembrar e, novamente, me alimentar do sentimento de pertencimento que a oficina provocou em mim. O sentimento de estar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas, fazendo a coisa certa. Ai... que bom!!!

O link para a postagem da Mangala e as fotos que registraram aquele dia tão especial:

http://www.atelieanjico.blogspot.com.br/2012/09/quintal-agroflorestal.html

PS. A oficina só foi possível de ser realizada graças ao apoio do Ministério da Cultura via Prêmio Tuxaua. Deixo aqui os meus agradecimentos!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Chegou Novamente a Primavera!



O quintal está em festa. Chuva de verão no Equinócio de Primavera. Chuva de verdade, de gota grande que molha o chão e que lava as folhas revelando no dia seguinte o verde brilhante que estava escondido sob a poeira da seca.

O dia seguinte: Passarinhos diversos e muitos gritam, cantam, berram e chamam sem descanso por seu par. Também chamam a mim e vou lá ver o que acontece... Logo cedo, descobertas incríveis! As helicônias insinuam suas flores vermelhas bebida de beija-flores. O ingá insinua seus frutos. Cores por todos os lados. Flores e plantas crescem a olhos vistos. Levo um susto. A pitangueira ficou mocinha! Pela primeira vez, mostra suas pequenas e delicadas flores brancas. Quem sabe ela percebeu que sua mãe morreu e resolveu assumir a produção de pitangas deste ano! De tarde, mais uma surpresa: as helicônias exibem suas inflorescências vermelhas matinalmente só insinuadas.

Janaína pergunta: “você gosta mais do inverno ou do verão?”. Minha amiga, com quem conversamos, responde: “aqui em Brasília, prefiro o inverno”. Não me lembro como a conversa continuou, mas de repente ouvi Janaína dizendo: “... no verão faz frio e no inverno faz calor”. Alto lá! Que susto. Minha filha de nove anos não saber ainda o que é inverno e o que é verão. “não filha... é ao contrário!”. “Mas mãe, é inverno e está muito calor!”

Pois é, apesar de tudo estar muito bagunçado e no inverno fazer tanto calor, me sinto invadida por confiança e fé com o início dessa Primavera com cara de Primavera, com sintomas de Primavera, com indicadores de Primavera. Quem sabe um novo tempo já anunciado começa a acontecer ao mesmo tempo em que o caos parece se instalar! Torço para que sigamos assim, reconhecendo as estações do ano, das quais toda a natureza é dependente. Dois graus de diferença nas máximas e mínimas podem representar o fim de uma espécie em algum lugar. Muitas plantas necessitam de temperaturas que atingem um mínimo nas noites de inverno para florescerem, outras precisam da combinação entre uma determinada temperatura e um determinado comprimento de dia. A natureza é de uma enorme complexidade delicada, intrincada, de precisão milimétrica que se construiu ao longo de milhões e milhões de anos a partir da relação entre os seres e desses com os ritmos da terra e do céu. Em co-evolução, espécies de plantas, bichos e microorganismos foram, ao longo do tempo, construindo sistemas, mecanismos e estratégias que permitiram com que se estabelecessem, se multiplicassem e deixassem descendentes em um processo que envolveu e envolve milhares de variáveis dificilmente compreendidas por nossos sistemas científicos baseados na fragmentação do conhecimento.

Não sendo possível tudo compreender, resta-nos aceitar e respeitar a inteligência da natureza, seguir seus fluxos, utilizar de todos os nossos sentidos para agirmos no sentido de ajudar, proteger, perpetuar... ter sempre em mente fazer parte desse sistema vivo complexo e vibrante ao invés de querer controlá-lo.

Quem sabe assim nossos netos e bisnetos não se confundam mais sobre se faz calor no inverno ou no verão.